 |
| Segunda-feira , 27 de Dezembro de 2004 |
meias verdades (1)
· Tudo termina quando viramos dono, com certificado de posse outras coisas. Dar e ter liberdade são coisas essenciais.
· Há sempre alguém após a saída de emergência. Experimente.
· Palavras jamais dominam a noite. Eis aí um grande mistério.
· A memória é o paraíso e o gatilho da arma.
· Fotografias deixam uma impressão mais forte que as imagens em movimento, talvez por recortarem com precisão, uma fatia nítida na duração. É o que se retém na memória.
· Minha veia litero-musical às vezes parece estar prestes a explodir. Às vezes só parece. A bem da verdade, intriga-me os opostos: a momentânea falta de criatividade que teima insistentemente em perdurar por infindável tempo e depois, os momentos de pura euforia, como que surgidos do nada. Há semanas em que produzo e o faço incessantemente. Em outras épocas, chego a ficar longo tempo sem que uma frase se concretize de fato. Vida de artista não é fácil.
· Recomponho cada ato falho, cada sonho, cada feito pela sua imediata metade. Recomponho-me em ciclos.
· Cada poema, um rebento. Como é difícil criar!
[WALLACE PUOSSO, quase 2005]
músicas do fim de semana: Trouble - Coldplay / Freak - Belle and Sebastian / Bittersweet Symphony - The Verve
filme do fim de semana: Albergue Espanhol (2003)
Produzido por Wallace às 14h04
[]
[envie esta produção]
|
| Quinta-feira , 23 de Dezembro de 2004 |
cena em relevo, retrato em sépia
SEVERINO ANDAVA TRANQUILO por uma rua qualquer, olhar perdido, cantarolando uma canção qualquer, dessas sem verso nem refrão. Severino padrão, igual a tantos outros que perambulam pelas ruas. De repente impulsionado por nada dobrou uma esquina, oitocentos metros depois outra & três casas depois adentrou sorrateiro por uma porta suspeita, dessas com tinta descascada & faltando número, subiu apressado quatro lances de escada & num corredor com lâmpada queimada entrou num quarto suspeito, abriu uma cachaça barata, dessas com tampinha e nome esquisito, ligou no jornal das oito & enquanto cid moreira centenário & absoluto discorria sobre os males do homem, Severino enforcou-se com a gravata nova no encanamento do banheiro malcheiroso e num canto da boca um sorriso: teria enfim a paz, seria enfim feliz, ele que quase conseguiu, quase se formou, quase se casou, quase venceu, quase subiu na vida, quase conseguiu ser ele mesmo, Severino com um quase sobrenome como tantos outros severinos quase gente em meio ao buraco negro da cidade grande, ele um quase severino.
[WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado em 2005]
música do dia: Too Much to Lose – Jeff Beck (CD There & Back, 1980)
leitura do mês: O Roteiro de Deus – Dois estudos sobre Guimarães Rosa, de Heloisa Vilhena de Araújo (Ed. Mandarim, 1996)
Produzido por Wallace às 12h38
[]
[envie esta produção]
|
| Terça-feira , 21 de Dezembro de 2004 |
diário de bordo – Adultério (2)
TER DEZ 21, 2004
TEXTOS PARA ESTUDO
Lolita – Vladimir Nabokov (tradução de Jorio Dauster);
Electra – Eurípedes (tradução de J.B. Melo e Souza);
O Narrador – Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov – Walter Benjamim;
O que é Teatro Épico? – Um estudo sobre Brecht – Walter Benjamim;
A Personagem Contemporânea: Uma hipótese – Luis Alberto de Abreu;
Dramaturgia: A proposição de Price – Bernard Grebanier;
Aristóteles: Os Quatro Discursos – Olavo de Carvalho (disponível no site do Grupo Tempo);
Do Grotesco e do Sublime – Victor Hugo
Produzido por Wallace às 13h29
[]
[envie esta produção]
|
|
COISAS PARA SE TER EM MENTE EM MEIO AO DESERTO
“Há tempos são os jovens que adoecem
há tempos o encanto está ausente
e há ferrugem nos sorrisos...”
EXISTEM COISAS sobre as quais eu preferiria não falar. Mas as coisas mudam. E eu me sinto quase na obrigação de dizê-las.
Não suporto opressão. Nenhuma forma de opressão.
Vivo numa república democrática onde tenho direitos garantidos pela constituição, direitos esses que às vezes (em boa parte das vezes) vemos desrespeitados.
Então, de uma hora para outra me cerceiam o direito à voz. Proíbem-me de trabalhar, fecham o semblante, não há diálogo. E tudo, por vaidade pessoal.
Tenho saboreado o gosto amaro desta “ditadura disfarçada” que impera nessa cidade, com certa repugnância e uma irritação permanente que às vezes beira o insustentável.
Posso arriscar-me a dizer – e com certeza vou errar muito, muito pouco – posso dizer, que vivo numa cidade de mentira. Uma cidade quase fictícia, com suas multinacionais imponentes e distantes, suas praças com fontes de água não tão límpidas, seu centro comercial com fachadas novas, asfaltos novos e canteiros de gosto arquitetônico e paisagístico duvidoso.
Uma cidade dormitório, que fala outros idiomas e onde não se criam raízes porque as árvores da tradição não são (ou não conseguem ser) frondosas.
E temos também uma cultura fictícia, quase inexistente, abalizada por uma instituição comprometida com o próprio umbigo onde prima-se pelos números, vastos números, e uma estranha postura elitista.
E os artistas que nesta cidade habitam também são quase fictícios, com seus umbigos reluzentes. Alguns se acham os tais. Estrelas cintilantes no meio do deserto.
Na minha cidade, o solo é árido há anos. Tudo o que se planta não floresce.
Minha cidade fictícia é uma cidade que não mais sorri, é uma cidade de pessoas distantes, ausentes, com ferrugem no sorriso, pessoas que não se encontram simplesmente porque há muito tempo já não há onde se encontrar.
Não quero falar sobre tudo o que já foi dito.
Espero que a ditadura acabe logo.
[WALLACE PUOSSO, dezembro de 2004]
Produzido por Wallace às 13h15
[]
[envie esta produção]
|
| Sábado , 18 de Dezembro de 2004 |
COISAS PRA SE FAZER NA PROVÍNCIA QUANDO NÃO SE ESTÁ MORTO
APÓS UM ANO EXAUSTIVO feito de experiências novas e escolhas inevitáveis resolvi prestar mais atenção à minha volta e tentar entender porque algumas coisas são o que são – de maneira definitiva – e outras nunca são o que aparentam.
Tomando como exemplo figurativo as pílulas – azul e vermelha – com as quais Neo é confrontado no filme Matrix, a vida também nos oferece escolhas. A maior parte das pessoas talvez nem se dê conta disso e ajam de maneira intuitiva. Para uma minoria, no entanto, uma escolha é uma questão lógica, uma ciência pela qual é possível delinear rumos, traçar objetivos. E toda escolha tem seu preço.
Sou artista por escolha. E sempre soube o preço que estaria disposto a pagar.
Moro numa cidade de interior por escolha. Poderia morar em qualquer lugar do planeta - e o ser humano é o único que tem essa capacidade de adaptação. E, mais uma vez, pago um preço por isso.
Trabalho há quatro anos numa ONG também por escolha e, principalmente, por entender que minha arte – ou o quer que eu entenda por arte – não deve (nunca) ter caráter assistencialista e nem depender de ação governamental. A arte, por si só, já tem uma finalidade social.
Isso ficou claro quando visitei a Bienal de São Paulo neste ano. Ao entrar no pavilhão e ver todas aquelas obras espalhadas, me perguntei: pra que serve isso? A quem isso interessa? Ao final de três exaustivas horas, me convenci de que a arte modifica as pessoas, de uma maneira ou outra. Conduz à reflexão. Isso é uma ação social e não é assistencialista.
Saindo da Bienal encontrei um dos vendedores da Revista Ocas e conversamos um pouco sobre várias coisas. Ele, um morador de rua em processo de ressocialização, cheio de vigor e planos para o futuro. Comprei o último número da revista, que traz como principal matéria, uma entrevista com Marcelo Yuca (ex baterista d’O Rappa). Marcelo diz – entre outras coisas – acreditar no “poder do cidadão” para mudar a realidade. Eu também acredito. E por isso faço escolhas e sofro e sou feliz, mas não abro mão do meu poder de decisão entre uma coisa e outra.
A gente vive querendo mudar o mundo. Essa é a grande verdade.
Jorge Braz, diretor artístico do Teatro de Tábuas escreve em seu último artigo para a Revista Contra Regra (Grande descoberta etílica): “... tudo que passo e que passamos na vida está ligado ao que desejamos desta própria vida e, se a estrada é dura, é porque escolhendo crescer a gente opta por caminhos tortuosos, íngremes e longos. Afinal, ter um celular e carro de última geração, convenhamos todos, é um desejo nada ambicioso, não é?”
E continua: “... para mudar o mundo tem que se começar a mudança por si próprio, depois mudar um e fazer um par, aí vem outro e outro. Para isso acontecer tem que se convencer e ser convencido. Isso se chama desenvolvimento humano e é duro, chato e complicado. A gente lida com o que existe de pior no mundo.”
Escolhi que vou interferir nessa letargia que impregna a minha cidade. Que impregna a arte que é feita na minha cidade, que por sinal, não é o umbigo do mundo, mas é o local que escolhi para o meu desenvolvimento humano. Ainda não sei de que maneira posso fazer isso. Mas é preciso fazer alguma coisa.
Numa conversa com Rodrigo Roman, falamos de tudo, ou quase tudo. Falamos de vanguarda, de mesmices, falamos de pessoas que se movem continuamente e dos que são sedentários em suas pequenas ambições. Falamos de ações concretas e coisas incertas.
As dúvidas são sempre em quantidade maior, pode reparar. Mas são elas que contribuem para a qualidade do nosso crescimento e para as escolhas que fazemos.
Tenho certeza de uma coisa: mesmo que eu venha a ter um carro do ano e um celular de última geração, o que mais importa nessa história toda é esse processo rico e criativo que tenho a oportunidade de vivenciar.
E, por compreender isso, faço minhas as palavras de Jorge:“... posso curtir de forma mais adequada o momento brilhante da minha vida, o do meu desenvolvimento humano.
Isso quer dizer muita coisa.
[WALLACE PUOSSO / São Paulo, Dezembro de 2004]
Produzido por Wallace às 10h54
[]
[envie esta produção]
|
| Quinta-feira , 16 de Dezembro de 2004 |
diário de bordo – Adultério (1)
QUI DEZ 16, 2004
A IDÉIA DE ESCREVER ADULTÉRIO surgiu da experiência com a adaptação e montagem de conto de Joana Fonn para Mostra de Esquetes no primeiro semestre deste ano no Centro de Artes Cênicas Walmor Chagas.
A adaptação à época, foi feita por mim e Edson Gory e a cena, completa, ficou em pouco mais de 15 minutos e densa, extremamente densa.
Junto comigo, no elenco, estavam Mariana Sversutti e Isabel Cedotti. Casa lotada nas duas sessões. Ótima repercussão. Isso motivou então, a continuidade do projeto.
A proposta inicial de “Adultério” é discutir relações familiares, mais precisamente entre pai e filha e mãe e filha, relações estas diametralmente opostas, onde não há um limite visível sobre o que é permitido e o que é dogma. Entre o que é real e o que é imaginação.
A primeira coisa a ser feita foi pesquisar material sobre o mito de Electra e reler o livro “Lolita” de Vladimir Nabokov.
Em seguida, foi feito um canovaccio, com desdobramento e descrição genérica das cenas.
A terceira etapa consistiu em desenvolver os diálogos.
Os diálogos foram criados em cima de um estudo do emocional das personagens. Dessa forma, a personagem principal tem bastante de “Lolita” e um pouco da rebeldia do esquete “Prelúdio para Piano e Voz”, que por sua vez foi adaptado do conto “Sempre à Flor da Pele” de Rose Calza.
Junto a tudo isso, dou continuidade ao meu estudo sobre narrativa, que começou lá atrás, com “Após a Última Dança, o Gosto Amargo da Festa” e prosseguiu com Cláudio Mendel e Luis Alberto de Abreu.
Produzido por Wallace às 10h24
[]
[envie esta produção]
|
| Terça-feira , 14 de Dezembro de 2004 |
a silenciosa ditadura do patrocinio
Caro Wallace
TIVE A PACIÊNCIA DE LER os textos aqui publicados e gostei de suas reflexões. Acabei de assistir na Rede Vida o jurista Ives Ganda Martins refletir sobre a cultura mercenária de hoje em dia: vivemos a silenciosa ditadura do patrocínio financeiro.
A celebração surgiu para romper com estas amarras, mas sempre nos enrolamos nesta teia.
Gostei do povo do Teatro das Tábuas: estão enfrentando estes desafios com a cara limpa. Fazer cultura é um ato coletivo.
Para onde caminhamos? Não sei, estamos aqui, ainda vivos, mas cada um com suas vidas, seus projetos bem sucedidos e um a um, na fila do restaurante de um real ou nos coquetéis e bares com grandes projetos.
Meu amigo Wallace, gosto de sua poesia e sua dolorida reflexão.
Quando seremos sábios o suficiente de conseguirmos aglutinar, em vez de dispersar?
A Celebração ao Renascimento da Poesia começou com Edu Planchez entre o natal e o ano novo de 95 em frente à antiga Câmara municipal. Eu nem fiquei sabendo. Mas, em janeiro do ano seguinte, me avisaram a tempo, incentivei e ai rolou.
O que nos falta hoje para deixar a coisa rolar é só vontade e camaradagem.
Sou saudosista sim, mas buscando o agora. Precisamos fazer a coisa acontecer.
Continue a fazer o seu blog e espero seus dez poemas para a antologia, favor deixar em casa.
Um abraço.
Joca Faria, 14 de dezembro
Produzido por Wallace às 20h42
[]
[envie esta produção]
|
|
QUALQUER PREÇO – reflexão em tempos de rancor e cólera
QUE MELANCÓLICOS esses tempos e que vivemos!
Tempos em que as paixões são substituídas pela razão, a doação pelo mercantilismo, tempos em que as pessoas não mais se encontram nessa província chamada São José. Tempos estranhos.
Tempos em que a cooperação saudável que havia outrora entre as pessoas – artistas ou não – agora se transforma em concorrência a qualquer preço...
Nosso pecado original advém da industrialização, do grande campo de empreendedorismo em que essa cidade se transformou. E o espontâneo, onde foi parar? Tudo o que é legítimo e espontâneo torna-se sufocado por uma lógica sistêmica que impregna, toma conta de todas as áreas. Inclusive na arte.
Como aliar o profissionalismo num “mercado cultural” ainda inexplorado com o bom senso? Com a liberdade de criação? Com concorrência colaborativa?
Estou cansado de maquiar minha arte em prol de um modelo estabelecido.
Não quero mais fazer teatro de rua, só porque os teatros são inacessíveis.
Não quero fazer apenas teatro-empresa, SIPAT e outras coisas do gênero apenas e tão somente porque temos inúmeras indústrias e um grande potencial financeiro.
Não quero mais ver músicos mendigando cachês pelos bares.
Não quero que as pessoas pensem que dança é aquela coisa que as academias apresentam todo final de ano, num ciclo repetido e vicioso onde a falta de criatividade e a gana por bilheteria sempre falam mais alto.
Não quero mais ver nossos jovens poetas, jovens atores, jovens músicos, sem direcionamento, sem esperança. Jovens migrando para outros lugares, em busca de melhores oportunidades.
Falta coragem e posicionamento ao poder público.
Falta ousadia. Até mesmo ousadia nossa, os melancólicos que se disfarçam com rancor e “viuvez de esquerda”.
Até quando?
Nossa arte é assim: saudosista, conservadora, melancólica, industrial.
Nosso teatro é eficiente, mas conservador.
Nossa música é pluralista e original, mas não prevê vôos mais altos.
Nossa dança é radicalmente conservadora, chega a agredir os olhos. Salvo uma exceção ou outra. Mas é pouco.
Sinto falta de humanidade na cidade onde vivo. Menos máquina, menos razão, menos embalagem e mais tato, olfato, coração.
Houve um tempo em que artistas podiam ocupar praças, se apresentar em teatros, exercer uma cidadania de fato e direito. Mas, falar que “houve um tempo...” soa saudosista, melancólico, perdido do próprio. Tempo. E talvez assim deva ser.
Melancólico. Como essa cidade. Como um amor pela metade.
Qual é o seu preço?
[WALLACE PUOSSO / novembro de 2004]
Produzido por Wallace às 10h16
[]
[envie esta produção]
|
| Segunda-feira , 13 de Dezembro de 2004 |
FEITO BLUES
Fragilidade sensual
força bruta da paixão
incandescência antropofágica
estática dinâmica
bem e mal de mãos dadas
corpos colados
no transescuro ocre
de um mar raivoso
e delicado
sentimento encastelado
de um lado sedução
de outro perdição
mulher tem o diabo na pele
[WALLACE PUOSSO]
Produzido por Wallace às 23h39
[]
[envie esta produção]
|
|
Publico abaixo poema do meu amigo Rodrigo.
Esse tema faz parte de uma conversa que já se arrasta por algum tempo e que deve resultar em trabalho de palco para 2005. Aguardemos!
T A B U L E I R O O O
Temos nestes campos o preto e o branco em xadrez, Só não temos as torres dos reis e bispos. Os peões que aqui estão, querem gritar: "EU EXISTO!" E a todo custo procuram tombar-me em minha vez.
Sem tradição a cultura desta sociedade se fez. Não tivemos barões e viscondes para isto; Muito menos um herói ou personagem bem quisto. Somente um poeta - um maluco, talvez!
Peão que tomba peão Não alcança um dia o perdão, Mas tem consigo uns dias de glória.
Aqui o esforço se faz sempre em vão Para se estabelecer alguma tradição, Para projetar-se um dia na história.
Rodrigo Roman, dezembro de 2004

>> Entenda quem quiser. É isso aí.
Produzido por Wallace às 23h19
[]
[envie esta produção]
|
| Domingo , 12 de Dezembro de 2004 |
doismilequatro
POR AQUI, CORRERIA SEMPRE, novidades boas, novos amigos, rupturas essenciais, projetos de vida renovados, novos amores, projetos e parcerias de tábuas, poemas de noite, música eletrônica, roda de jongo, projetos para um novo ano, atuação em torre negra, re-direção em nesta data e última dança, e-mail da suíça, torpedos no meio da noite, cabelos vermelhos, olhos azuis, sorrisos que tocam, promessas de felicidade compartilhada, caminho novo de mãos dadas, música ao violão, show de lenine em sampa, porre no café cancun, curso com o abreu, saída da troupe, shi zen, novos parceiros em são joão, novo livro, bons filmes, direção num curta, curta e marcante passagem pela noite paulistana, rock no velotrol, programa de tv, celebrações no ano que vem, noites perfumadas, de mãos dadas e confiança renovada, coisas, coisas...
Produzido por Wallace às 15h22
[]
[envie esta produção]
|
|
coração de tábuas
ESCREVO AGORA, após semanas de convivência entre o Teatro de Tábuas e os Celebreiros, ainda sob o impacto de uma convivência rica em signos e significados.
Ainda hoje, depois de anos como trissetoriano, me surpreendo com a capacidade das pessoas em compartilharem os mesmos sonhos, aspirarem os mesmos projetos de vida, lutar por causas muito próximas. E isso nunca é pouco. Apesar das barreiras geográficas e temporais.
Foram idas e vindas de descobertas, trocas, surpresas, gratas surpresas.
Nessas últimas semanas, conheci pessoas especiais como a Célia e José Luiz que receberam os Celebreiros em sua chácara numa noite chuvosa, ao som de Leonard Cohen e um saboroso peixe cozido em fogão à lenha, Iza que nos brindou com histórias sobre celebrações e sensibilização, Fernando que nos ensinou como ser Jedi após as duas da manhã e por fim, Dna. Luzia e Dualberto que nos acolheram de braços abertos em sua casa.
Pessoas especiais como Jorge que me indicou um outro caminho possível num dia frio em Itu, Érica, Daniel, Alessandro e Kelen (celebreiros de tábuas!).
Pessoas que acreditam. Sempre.
Desde a vinda do Teatro de Tábuas a São José dos Campos, nos tornamos colaboradores, confidentes. E o mais importante de tudo: nos tornamos amigos.
Amizades cada vez mais raras num mundo desbotado por conflitos armados, conflitos pessoais.
A partir de um outro olhar, reeducado, redirecionado, a arte torna-se bálsamo para todo tipo de opressão.
Saúdo, portanto, nossos amigos de tábuas com o que de melhor os Celebreiros sabem fazer: celebrar!
Que daqui pra frente possamos celebrar a qualquer momento, por mais breve que seja, as amizades verdadeiras, os empreendimentos de sucesso, as histórias de vida e de estradas, a cooperação mútua e a solidariedade. Porque um outro mundo é possível. Começa dentro da gente.
E nisso, o coração nunca mente.
[ WALLACE PUOSSO, dez 2004 / www.teatrodetabuas.com.br ]
Produzido por Wallace às 14h06
[]
[envie esta produção]
|
| Sábado , 11 de Dezembro de 2004 |
TRÊS AUTORES ESSENCIAIS
por Daniel Piza (Jornal O Estado de S. Paulo e Editor da Revista Bravo!)
DOSTOIEVSKI - Li primeiro Notas do subterrâneo, também traduzido como Memórias do subsolo. Fala sobre até onde pode ir a indiferença de um indivíduo em relação aos outros. Depois li Crime e castigo. Dostoievski turbinou minha mente. Qual o limite da autojustificativa, por mais intelectual que seja? Depois, Irmãos Karamazov, com a frase "Se Deus não existe, então tudo é permitido". Ninguém abre tanto a cabeça como Dostoievski, nem mesmo Nietzsche (sua crítica ao cristianismo como convite à fraqueza, em O anticristoe Humano, demasiado humano ou Sartre (sua crítica ao conformismo dos que têm mais de 30, em A idade da razão. Vivi fases riquíssimas desses três autores.
MACHADO DE ASSIS - Por falar em turbina, li Quincas Borba com o pé enfiado num turbilhão d'água, enquanto me recuperava de contusão grave (fui atropelado e quebrei tíbia e fíbula). Ao contrário do que ocorrera em Dostoievski, comecei Machado pelo caminho mais difícil. A doutrina do Humanitismo que Quincas Borba desenvolve na companhia de seu cachorro, mesmo que um tanto cínica (e esta palavra vem de "canino"), abriu outra janela na minha cabeça. Depois li Memórias póstumas de Brás Cubas, um dos livros mais divertidos de todos os tempos. Uma personagem de Aldous Huxley, Philip Quarles, em Contraponto, também pareceu ter uma teoria perfeita sobre a capacidade do indivíduo de elaborar saídas conceituais para o mundo, mas sem a ginga de Machado, sua capacidade de não se levar a sério. E o jornalista H.L. Mencken, de O livro dos insultos, colocou-me diante da mais lúcida série de argumentos sobre a dificuldade humana em aceitar a realidade, superando até mesmo o efeito de Bernard Shaw em mim, apesar da erudição deste.
SHAKESPEARE - Poesia, como filosofia, é fundamental para dar gosto pela leitura, além de ajudar a desconfiar dos romances convencionais, da ficçãozinha habitual. E nenhum poeta fala tanto a quem quer que seja quanto Shakespeare. Entrei de cara em Hamlet, a obra literária que melhor exprime a angústia de se sentir isolado, diferente, dono único de uma causa difícil. Confiança demais nos outros, mostra Hamlet, é uma forma de ilusão. Li tudo de e quase tudo sobre Shakespeare, sei "n" trechos de cor, tenho as fitas de Olivier, Gielgud e Branagh lendo-o. Nenhum poeta, nem mesmo Dante, Baudelaire ou T.S. Eliot (meu brasileiro preferido é João Cabral), nos dá tanto. Está tudo ali, inclusive a impossibilidade de tudo estar ali.”
"Homens que lutam por toda a vida são imprescindíveis". (Bertold Brecht)
Produzido por Wallace às 23h13
[]
[envie esta produção]
|
|
dez coisas [por wallace puosso]
10 LIVROS
DOM QUIXOTE – Miguel de Cervantes
CRIME E CASTIGO – Fyodor M. Dostoievski
ANNA KARENINA - Leon Tolstoi
O ESTRANGEIRO - Albert Camus
MADAME BOVARY - Gustave Flaubert
1984 - George Orwell
ANGÚSTIA – Graciliano Ramos
O TEMPO E O VENTO – Érico Veríssimo
O RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde
MACUNAÍMA – O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER – Mário de Andrade
10 FILMES
CARNE TRÊMULA – Almodóvar
NOITES DE CABÍRIA – Federico Fellini
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL – Glauber Rocha
ABRIL DESPEDAÇADO – Walter Salles
CRIME EM MANHATAN – Woody Allen
A LIBERDADE É AZUL - Krzysztof Kieslowski
LARANJA MECÂNICA - Stanley Kubrick
ASAS DO DESEJO – Win Wenders
O TRONO MANCHADO DE SANGUE – Akira Kurosawa
O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAN - Jean-Pierre Jeunet
10 TEXTOS TEATRAIS
VESTIDO DE NOIVA – Nelson Rodrigues
ÁLBUM DE FAMÍLIA – Nelson Rodrigues
O PAGADOR DE PROMESSAS – Dias Gomes
ESPERANDO GODOT – Samuel Beckett
O CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO – Bertold Brecht
A CASA DE BERNARDA ALBA – Federico Garcia Lorca
FAUSTO - Goethe
HAMLET - William Shakespeare
REI LEAR - William Shakespeare
ÉDIPO REI – Sófocles
Produzido por Wallace às 23h13
[]
[envie esta produção]
|
|
O PRINCÍPIO ERA O VERBO...
HOJE QUERO FALAR SOBRE AMIGOS. Os que sobrevivem aos temporais. Amigos que não desbotam com o tempo. Aqueles com quem podemos contar. Os que nos ajudam a recolher os cacos da vidraça quebrada. Os que dividem o tempo e o coração conosco. Amigos que nos fazem sorrir nas piores horas e nos emocionam com as melhores histórias. Os que estão juntos na ribalta sob a luz dos holofotes. Ou na linha de frente de uma batalha perdida. Os que levantam a bandeira e proclamam a paz, comemoram a vitória, pedem rendição, dão a largada, comemoram um gol. A trajetória é sempre mais recompensadora que o pódio.
Essa última semana de outubro foi uma semana difícil em vários aspectos. Os Celebreiros quase entraram em colapso por excesso de trabalho, o Centro de Artes Cênicas encerra um ciclo de 2 anos e inicia outro, agora sem companhias, mas só com pessoas (o que é uma mudança de paradigma!) e, apesar dos temporais os amigos resistem ao efeito desgastante do tempo. Edu, Ed, Shitão, Carlão, Flau, Marcelão e Milena: é nos detalhes que encontramos as maiores virtudes.
Meu profundo respeito.
[WALLACE PUOSSO, outubro 2004]
Produzido por Wallace às 23h09
[]
[envie esta produção]
|
|
DIALÉTICA
A CASA DO SOL não mais aparece por entre as montanhas.
A casa do sol é feita de. Sol. Só. O corpo anestesiado estendido no sofá da sala, já não sente dor. Nem alegria. Nem prazer, talvez. Cada uma das sensações tem entre si uma relação dialética, possível, palpável. O coração não mais dispara fácil, tátil. O coração não cabe na cabeça e vice-versa como num poema de Haroldo de Campos. Os olhos ainda se acostumam com a falta de luz. Ou a proximidade de algo. Quanto mais próximo do olhar, tanto mais difícil de se ver. Se ouvir. Se perceber.
A verdade nem sempre vem à tona: prenda o ar que nós vamos subir.
Subindo o tom, uma oitava acima, o suave furor do silêncio se faz notar. Suba o tom quando lhe dirigirem o silêncio opressor das palavras não ditas, ou proferidas pela metade, o silêncio repressor das costas voltadas.
A casa do sol está para o céu como o céu está para o mar numa noite clara de luar. Um céu em auto-relevo. A casa do sol, oculta pelas sombras e pelo frio do final de tarde já não oculta os versos que tanto anseia. O que um dia foi poesia hoje é respeito. E deferência. Quantas Hildas, Cecílias, Lígias, Coralinas serão preciso para aplacar nossa inquietude?
Segure minha mão: o perigo já vai passar (tudo passa, tudo sempre passará...).
Somos passageiros de uma composição férrea que risca o pó e a precisão das montanhas mais verdes, com cumes mais altos, ar mais rarefeito. Estamos sempre à cata da paisagem perfeita, da composição harmoniosa, da pintura equilibrada, do espetáculo apolíneo, da poesia arrebatadora.
Solilóquio: metade de mim contempla a solidão como uma queda necessária, que autocompleta o que falta, a outra metade admira sozinha a possibilidade da felicidade que se avizinha, como se fosse um desvio de rota à distancia segura dos olhos.
Olhe para mim: vamos juntos até o fim...
Vamos caminhar pelas noites com passos confortáveis de pelúcia (como a dez centímetros do solo numa fuga alucinada rumo a uma jornada interior). Palavra é o que eu não sei.
A casa do sol parece atravessar os tempos imemoriais, parece nos observar onipotente, onipresente. Parece ser. O que é.
Contemplo a sordidez dos que plantam tempestades com tapas nas costas e palavras de alento. Ouço atento o que os olhos tem pra dizer.
Todo conhecimento traz dor e toda dor vem do medo de sentir dor.
Quando a dor for inevitável, experimente a dialética. Ela sempre funciona.
E não tem contra-indicação.
[WALLACE PUOSSO, setembro 2004 / para Érica Teodoro]
Produzido por Wallace às 23h07
[]
[envie esta produção]
|
| Quarta-feira , 08 de Dezembro de 2004 |
marco zeroum
TUDO SE MOVE. A natureza, as horas, as pedras. A arte rejuvenesce, ainda que fale de amores brutos, discorra sobre o trágico-cômico, objeto obtuso.
A arte é parte de um todo.
Há os que olham e não vêem. Há os que olham e não entendem o que estão vendo.
Algumas coisas parecem fazer sentido na medida exata em que deixam o sentido se fazer.
Quero escutar com os olhos, ouvir com o tato, lamber o som das coisas. Descoisificar.
Parafraseando John Cage: os gestos que o ator externa são. Teatro.
Ah... é bom que o coração bata, os olhos brilhem, as mãos umedeçam. É bom se sentir vivo. Bom e perigoso.
A vitalidade é o antídoto ao amarelo da memória. O resto, pertence aos museus. E que lá permaneçam.
Às vezes, poemas podem ser feitos sem palavras. Amizades construídas sem promessas. Algumas ações são mais verdadeiras que muitos projetos. Ações feitas com o coração.
E isso (sempre) quer dizer alguma coisa.
[WALLACE PUOSSO, dez 2004]
Produzido por Wallace às 22h50
[]
[envie esta produção]
|
[ Literatura Anterior ]
|
|
|