sobre agulhas e palheiro
Meu bem,
Escrevo-lhe de um pseudo-exílio. Nada pra se alarmar. Já estou nessa situação há vários anos, como estrangeiro numa maldita terra de bárbaros.
Sei que você me critica sempre, dizendo: “...porque ainda continua morando nessa cidade de merda, que nunca lhe deu nada em troca?” Ou então, em momentos de melancolia: “...você se doa, se mata de trabalhar, dá a cara à tapa, a troco de quê?”
Você tem toda razão. Escolhi essa cidade para morar e trabalhar mas... Às vezes me pergunto porque insisto em continuar aqui. Acho que gosto de sofrer, gosto de falar para as paredes, vai entender...
Nada parece acontecer por aqui, de verdade. A pasmaceira vem disfarçada de perfumaria. Então estamos combinados: atores, atrizes, companhias de teatro, ongs culturais, fundação cultural, não fazem mais do que perfumaria.
Porque será que nenhum artista grita nesta cidade? Porque será que todo mundo que trabalha com cultura se conforma com o que anda acontecendo? Será que é porque todos são conformistas?
É... talvez seja isso...
Definitivamente, vou continuar falando para as paredes.
Acabamos de fazer uma mostra de Nelson Rodrigues. Casa lotada todos os dias. Pagamos porcentagem da bilheteria por um lugar sujo, cheio de entulhos, de difícil acesso, com equipamento precário e sem técnicos. Porque é assim que a prefeitura trata o teatro joseense. Você acredita?
Mas o público, esse nosso Sancho Pança, essas pessoas que avalizam nossa resistência cultural quixotesca, estes compareceram.
Fora as pessoas que estão envolvidas com o Centro de Artes Cênicas, mais ninguém que trabalha com teatro na cidade apareceu pra prestigiar. Ninguém, você acredita?
E aí, quando tem Festivale, todo mundo é amigo de todo mundo, tapinha nas costas pra cá, beijinhos pra lá, um clima de afago e cordialidade...
Acho (sempre achei!) esse povo que vive de teatro, tudo gente falsa, sabia?
Mas, isso não faz diferença na minha vida, é bom que você saiba. Também reconheço pessoas de boa índole nesse meio. São poucas, mas existem. Aprendi a diferenciar as agulhas do palheiro.
O que me irrita de verdade, é que eu vejo muita gente reclamando, falando mal pelas costas, e ninguém toma atitude.
Atitude, meu bem, é artigo raro numa época em que as pessoas estão vazias por dentro. Vazias de sonho, de ideais, de vontade de mudar.
Mendex diz – com freqüência - que sou otimista, que acredito muito em mudanças. De certo modo, é essa esperança que me dá forças pra continuar, sempre.
Espero que na próxima carta eu possa compartilhar com você, notícias melhores.
No mais, nossa cidade insossa continua bonita, com suas belas praças e canteiros, suas fontes, seu anel viário...
Quer saber? Precisamos de mais guerrilheiros e menos estilistas.
Talvez seja por aí.
Abraço e força sempre.
Sempre seu, Wallace
Produzido por Wallace às 15h52
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