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| Terça-feira , 26 de Julho de 2005 |

l filmando em flash-back l
Olhando bem, o rosto na janela / reflete a paisagem que se desmancha enquanto o carro segue. Olhar distante, ausente fita longe, quase nada. A estrada é nossa melhor entrega: Quantas fogueiras deixamos para trás? Quantas canções? Quantas primaveras passaram sem que se notassem / as flores, as cores, os gestos, os fatos? Praias pela alma / cruzada sem destino / aquele país guardado sem talher nem guardanapo. Sou arauto incontido, assistido & acorrentado pelo pó que a tudo cerca / mudo, parto para o nada / à cata de um capricho / um desvio de memória / uma estranha rotatória: “inocente ou culpado?”.
Inocente & culpado. A estrada prossegue.
Cada blues que ouço / dá a sensação de partida & o verão é a melhor estação para uma alma corsária. Estradas são entidades femininas, sinuosas & sedutoras.
Ainda tenho coragem de sentir / não sei bem se a noite acaba / às vezes dá vontade de partir / exilar-me em algum lugar / mas qualquer um parece perto o bastante.
”Queres saber de onde venho & pra onde vou?”.
Conte algo que eu ainda não saiba.
“Vivo permeando a dúvida, tola escolha de princípios & razões”.
Tenho visto & aprendido o que nem sempre sei / já jurei ser feliz / juntei a alma, fiz embrulho / pus sob o braço e sem estardalhaço parti / voltei & parti & tornei a mim.
Tentando voltar pra casa / toda procura é um ato de fé / a fé, ausência de dúvidas / uma dívida que jamais se paga.
Vivemos percorrendo limites / correndo riscos, perdendo chances.
“Toda queda impulsiona ao novo”.
Eis porque estamos vivos & sãos.
“Sem chance”.
Já divagamos sobre paisagens, cidades, montanhas, pastagens / searas que escorrem pela janela como num filme veloz & com câmera na mão.
Tenho assistido a filmes sem conteúdo / depois de tudo o que salva é o intervalo.
Toda propaganda é colorida / destoada, instantânea & de bem com a vida.
Acabaram as serenatas, os recitais, os saraus / as modas de viola & de carnaval / as viagens de trem.
Estão minando também as possibilidades de sonhar.
“Sem sonhos fica difícil viver”.
Sabes bem que podemos & devemos / criar nossos acessos de loucura lúcida & intempestiva / subir pela com a maré alta até a grande fogueira / aquela que nos aquece a alma com o furor dos rituais ancestrais. Onde estão os vinhos & uvas que ainda não celebramos? Que música é esta que nos guia milenarmente sem pressa alguma?
Toma-te de assalto: vamos dar cor a este filme P & B. Voltemos à estrada e façamos o quanto antes o roteiro de nossas vidas. Todo filme termina com THE END. Comecemos pelo contrário.
l wallace puosso / jul 05 l
Produzido por Wallace às 08h44
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| Segunda-feira , 18 de Julho de 2005 |
l tuareg l
O que antes fora estático / agora prisma / o que supunha-se ideal / verte-se em promessa / palavra é o que o coração não pensa / na pressa, esqueci de dizer / tudo ocorre ao mesmo tempo / nem eu mesmo sei direito / o que está acontecendo. Interpretando em miúdos / apoderei-me da razão (exceções que precedem regras) / empunhei velhas certezas / ao encontro da Bastilha / eu, tuareg pleno, preso à idéias que pesam / imagens que nada dizem. De hoje em diante e por todos os dias / tudo será diferente / daqui pra frente e por todos os meios / o medo de não sentir medo / encobrirá a vontade de voltar mais cedo.
l wallace puosso / jul 05 l
Produzido por Wallace às 14h36
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| Terça-feira , 12 de Julho de 2005 |

Nove Canções" aborda sexo sob nova perspectiva
Esqueça os violinos e as cenas de ondas quebrando na praia enquanto o casal de namorados se abraça. Em seu novo e polêmico filme, Nove Canções, o cineasta britânico Michael Winterbottom se propôs a romper tabus cinematográficos sobre o sexo que estão em vigor há anos.
O filme foi exibido primeiramente no Festival de Cannes, em 2004, fora da competição, e passou em poucas salas nos EUA, além da Inglaterra e competiu no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha e no Festival do Rio de Janeiro no final de 2004.
Nove Canções trata de um relacionamento através de cenas intensas e comoventes de sexo, muitas das quais não têm fundo musical, apenas o som de gemidos e suspiros.
É a história do relacionamento intenso entre um jovem inglês, Matt, e a americana Lisa, que ele conhece em Londres. Matt relembra o período em que estiveram juntos. As lembranças, claro, são de muito sexo, em retrospectiva, com diálogos mínimos, em capítulos curtos e intensos que se desenrolam na cama, entremeadas pelos nove shows que o casal assistiu, de bandas como Franz Ferdinand, Primal Scream, The Dandy Warhols e, de maneira um pouco destoante, Michael Nyman.
"Outros filmes tratam de todas as outras partes de um relacionamento humano, mas não da coisa sexual", disse Winterbottom, descrevendo sua abordagem. "A idéia foi simplesmente deixar o espectador ver duas pessoas juntas na cama."
"EXPOSIÇÃO HONESTA"
As cenas são extremamente explícitas, incluem cenas frontais de felação e masturbação, e são filmadas inteiramente com luz natural, o que as torna íntimas sem serem obscenas.
O resultado parece ter surpreendido até mesmo quem participou do filme. "É uma abordagem escapista, mas gosto de sua franqueza. Assistindo ao filme agora, me sinto pouco à vontade em ver algo tão real", disse a jornalistas a atriz Margo Stilley, que faz o papel de Lisa.
Winterbottom não tem a pretensão pornô-soft de uma Catherine Breillat ("Romance"); o sexo, aqui, entra sem culpa, sem a necessidade de acompanhamento de diálogos pseudofilosóficos como que para explicá-lo.
O diretor teve a idéia de fazer "9 Canções" a partir de "Plataforma", livro de Michel Houellebecq, e de "Império dos Sentidos", o cult de Nagisa Oshima, segundo ele, obras nas quais o sexo surge como extensão natural da história (ou da falta dela).
O'Brien e Stilley se conheceram dias antes do início das filmagens. Não houve ensaios nem havia roteiro; os atores desenvolviam os diálogos. "Às vezes, Michael refilmava cenas", diz O'Brien. "Era difícil, por razões físicas óbvias, mas é o trabalho de um ator."
9 Canções Direção: Michael Winterbottom Produção: Inglaterra, 2004 Com: Margo Stilley, Lieran O'Brien
Fonte: Reuters / Folha de SPaulo
Produzido por Wallace às 19h16
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| Segunda-feira , 11 de Julho de 2005 |

Foto de Adam Butler - "Dawn, Raya"
| | | L I S T A S | | |
“O sexo contém tudo, corpos, almas / Significados, provas, purezas, delicadezas, resultados, promulgações / Cantos, ordens, saúde, orgulho, o mistério materno, o leite seminal / Todas as esperanças, favores, dádivas, todas as paixões, amores, belezas, delícias da terra / Todos os governos, juízes, deuses, pessoas acatadas da terra / Estão contidos no sexo como partes dele mesmo e justificações dele mesmo.”
| Walt Whitman |
“Espartilhos, espanadores de penas, pentes verdes e vermelhos, velhas fotografias, réplicas de suvenir da Vênus de Milo, botões de gola para camisas há muito descartadas, estes históricos e danificados sobreviventes da alvorada da cultura industrial que aparecem reunidos nas moribundas Passagens ou Arcadas, ‘como um mundo de afinidades secretas’, eram as idéias filosóficas, como uma constelação de referentes históricos concretos. Mais ainda, como ‘dinamite político’, tais produtos datados da cultura de massa ofereceriam uma educação marxista-revolucionária para os sujeitos históricos da geração do próprio Benjamin, então vítimas recentes dos efeitos soporíferos da cultura de massa.”
| Susan Buck-Morss |
“Coisas que fazem o coração bater mais depressa: pardais alimentando seus filhotes. Passar por um lugar onde bebês estão brincando. Dormir num quarto onde acabaram de queimar incenso de boa qualidade. Perceber que o elegante espelho chinês que alguém possui ficou um pouco fosco. Ver um fidalgo parar sua carruagem na frente do portão da casa de alguém e instruir seus acompanhantes a anunciar sua chegada. Lavar o cabelo, fazer a toalete e vestir roupas perfumadas; mesmo se ninguém nos vê nesse momento, esses preparativos ainda assim causam prazer interior. É noite e esperamos uma visita. De repente somos surpreendidos pelo som dos pingos da chuva, que o vento joga contra as venezianas.”
| Sei Shonagon |
Segundo uma antiga enciclopédia chinesa, os animais se dividem em: “a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) amestrados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cachorros soltos; h) incluídos nesta classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com pincel finíssimo de pelo de camelo; l) etcétera; m) que acabam de quebrar o jarro; n) que de longe parecem moscas”. | Jorge Luís Borges |
Produzido por Wallace às 00h51
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| Quarta-feira , 06 de Julho de 2005 |

foto: Juan Travnik
l fleuma l
NOITE FRIA DE JUNHO, eu sob o alpendre contando estrelas, pensamento longe. Você olhando fixamente a fogueira no terreiro. Nesta noite, apenas divagaríamos. Você recusou-se a jogar “War”, por ser longo demais. Eu então tomei uma garrafa de vinho italiano, lembrando farras num hotel em São Lourenço. Coisas que você nem imagina. O silêncio atordoante fez-me pensar que estrelas emitem sons. Como algumas palavras refletem luz. Então percebi seus olhos fixos em mim como se eu pudesse ampliar minha visão periférica. Isso eu aprendi no teatro. Algumas coisas a gente não esquece. Esqueci sim, do seu último aniversário e isso lhe encheu de fúria. Ainda que você não tenha falado nada. Eu sei. Você nunca fala. Minha memória não é meu ponto mais forte. Ainda que para datas e números. Por isso jogo palavras cruzadas. Suponho que eu nunca tenha lhe amado, que você nunca tenha existido de fato e seja apenas convenção. A culpa é de quem? Não somos capazes de “ler” o que as íris dizem. Então, o silêncio retruca. Você abaixa os olhos, vira o rosto. Talvez alguma coisa incomode. Acendo um cigarro e o trago calmamente “Essa merda ainda acaba comigo”, por fim resolvo arriscar e puxo assunto: “Noite fria, não?”. Silêncio. “Achei que seria bom conversarmos, há tanta coisa...”. Silêncio. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez segundos depois – que poderiam ser horas, dias, meses, anos, sei lá, dez segundos depois tomo coragem e desafio: “Onde foi que erramos, pai?” Você então vira o rosto. Os olhos marejados. Acho que não precisamos dizer mais nada.
l wallace puosso / jul 05 l
FLEUMA - substantivo feminino 1 Rubrica: história da medicina. na medicina antiga, humor corporal supostamente causador de indolência e apatia 2 (sXV)Derivação: sentido figurado. qualidade, caráter ou comportamento de quem não sente nenhuma emoção ou não deixa transparecer sentimento ou perturbação alguma; frieza, impassibilidade 2.1 Derivação: sentido figurado. qualidade, caráter ou comportamento de quem revela apatia, indolência, indiferença
Produzido por Wallace às 16h14
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| Domingo , 03 de Julho de 2005 |
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GRAMAS
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Esqueçam as horas. O corpo já foi levado. O azul da noite ainda estampa o rosto. Boca muda poeira. Ausentes versos, palavras, sons. O maxilar articula contra a vontade. Do corpo. Versos transmitem desejo. Suas mãos tateiam meu sexo. Sua língua saliva. Eu mudo. A seus pés.
Noite passada tomamos todos um porre & fomos brincar de divindades no canteiro central da rodovia. A rádio ainda sintoniza canções da moda, a rua já limpa do mal-cheiro da feira livre contradiz o silêncio. Agora sabemos com quantos buracos se enche o Villa D’Aldeia. Divagamos sobre os cadáveres da vanguarda – parafraseando Ferreira Gullar - e como dar sobrevida às múmias da cidade-dormitório.
Lembro-me de Ana C., poeta que se matou pulando de um prédio. Esqueçam as poesias de amor. Quanto pesa o amor? Esqueçam as horas. O corpo já foi levado.
A morte não usa luvas de pelica.
[wallace puosso, julho/05]
Produzido por Wallace às 23h08
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[ Literatura Anterior ]
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