
foto: Sebastião Salgado
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Queria falar dos caras que são exceção. Os que fogem à regra. Não por indisciplina, mas por absoluta falta de opção.
Queria falar dos caras que batalham espaços nas calçadas movimentadas da cidade-grande. Acotovelam-se todos os dias entre as bancas de trabalho informal. Mantêm-se invisíveis nas estatísticas oficiais.
Queria falar dos caras que venceram na vida por mérito próprio. Num país em que sucesso é sinônimo de inveja e não é visto com bons olhos. Afinal, em terra de cego quem tem olho...
Queria falar dos caras que vivem à margem. Não porque escolheram. Porque foram obrigados. O sistema só não é injusto com os políticos. Esses sempre se dão bem no final.
Queria falar dos caras que vivem na periferia. Que morrem por lá. Que não chegam a completar maioridade. Mas que também têm sonhos, nome, crença. E não passam de estatísticas policiais.
Queria falar de uns caras encarcerados, enjaulados em centros sócio-educativos espalhados pelo estado. O mesmo estado que aparelha polícias e esvazia escolas. Mundo estranho esse.
Queria falar dos caras que batalham arte num país com fome. Fome de arte, de cultura, de educação, de formação, de cidadania. Fome de fome.
Queria falar dos caras que acreditam. Que sofrem. Que resistem. A correnteza, muitas vezes vence a fadiga. Mas quem se organiza em grupos é sempre mais forte.
Queria falar de uns caras que fazem a diferença. Não porque são diferentes. Mas porque agem de maneira coerente contra a alienação, a burrice, a corrupção, a insurgência travestida de paletó-e-gravata, a mediocridade.
Queria falar dos caras que não são de esquerda, nem de direita, nem de centro-direita, nem de centro-esquerda. Porque tudo isso é uma grande besteira. Nossas crianças precisam estudar mais Sócrates, Platão, Aristóteles, Lutero, Marx, Hegel, Brecht, latim e cultivar menos superficialidades. Os discursos não mais se sustentam. E isso é proposital, num mundo onde nada é por acaso.
Queria falar dos caras que sempre têm algo a dizer. Que estão sempre prontos a ouvir. Que estão sempre dispostos a dialogar. Que não têm medo de recomeçar. Nem que seja do zero.
A vontade, a inquietação, o desconforto já são um começo.
Um outro mundo é possível. Um mundo idealizado por caras como esses. Que não têm medo de dizer o que pensam. Que não têm receio de mudar de opinião. Que não titubeiam em olhar as coisas sob um outro ângulo.
Bem, na verdade você não é obrigado a olhar para o lado e nem mudar seu ponto-de-vista.
Existe sempre a opção do controle remoto.
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Produzido por Wallace às 20h52
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