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| Sexta-feira , 23 de Setembro de 2005 |

[clarice vai pra guerra]
Algumas coisas não mudam. Amizades com segundas intenções. Amores dissimulados. Paixões obsessivas. Comentários destrutivos.
Clarice sabe que é preciso cuidado redobrado.
Com toda unanimidade. Com generosidade em excesso. Com os que sorriem fácil e principalmente com os que riem da desgraça alheia. Com os que torcem pelo fim das coisas boas. Porque incomodam ou porque causam inveja. Com os que se metem em questões para as quais não foram chamados e ainda mais com os que tomam conta da vida alheia.
Clarice sabe que viver é um risco e só quer que os pesadelos diminuam.
Sabe que o sono é o corpo de delito do amor, mas precisa dormir com um olho aberto. E manter (sempre) um pé atrás. E desconfiar sempre dos apertos de mão e das palavras de apoio dos que se dizem amigos. Por trás do óbvio pode estar uma bomba de efeito remoto.
Na sua monotonia poética, ela sabe o quanto custa manter certas coisas nos lugares de onde jamais deveriam ter saído. Relações que terminam sem mais porquê. Relações de carinho que se confundem com traição. Amigas maníaco-depressivas com as quais jamais deveria ter relações. Comentários maliciosos e fora de hora. Presente de grego em dia de aniversário. Coisas que os amigos jamais fariam. Se fossem amigos.
Clarice procura evitar ex-namorados com crise de sexualidade e que se comovem com a dor alheia, mas não sabem bem porquê.
Deitada na banheira enferrujada, ela pensa nesse mundo de opostos. Enquanto toma vinho barato e desenha tatuagens pelo corpo com uma pequena faca. Clarice espera.
Espera pelo inimigo.
Ela sabe que ele está lá fora e é só uma questão de tempo.
Ela está preparada.
Porque algumas coisas não mudam. Nunca.
[WALLACE PUOSSO / 18 de setembro de 2005]
Produzido por Wallace às 14h43
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| Segunda-feira , 19 de Setembro de 2005 |
EXERCÍCIOS PARA UM FUTURO PRÓXIMO
Sou teatro. Diálogo, tablado, rotunda, drama. Não sei ser comédia. Ainda. Sou Antunes, Peter Brook, Meyerhold, Eugênio Barba, Shakespeare. Sou silêncio e respeito aos mestres. O segredo está na respiração e na capacidade de se concentrar.
Sou ONG, voluntariado, entusiasmo. Tenho ideologia e me recuso a vender meus sonhos. Quero mudar as coisas. E elas insistem em continuar no mesmo lugar. O segredo neste caso está na paciência e na persistência.
Sou vinho, queijo, pão italiano, chocolate suíço, azeite, alcaparra. Sou cozinha e culinária. Conversa à beira do fogão. E pão na chapa com pingado no balcão da padaria.
Sou jazz, cinema de arte, catálogo de galeria de arte, Van Gogh, Rembrandt. Sou Garcia Lorca, Saramago, Oswald de Andrade, Drummond e Quintana. Sou Pablo Neruda. E quero viver uma vida de Picasso. Felicidade não é viver muito. É viver bem.
Sou rock, blues. Tudo no volume máximo. Como a vida. Sou Bob Dylan, Morrisey, Nirvana, Joy Division, Mutantes, REM, Smiths, Lenine, Legião. Sou poesia com música. E alfaia e violão. E música eletrônica.
Sou existencialismo. Contra certas coisas, não se deve lutar. Sou poesia e crônica. Já publiquei um livro, plantei várias árvores. E é melhor parar por aqui.
Sou fotografia. Em preto e branco. Luz natural. Sou Sebastião Salgado, Cartier Bresson, Bob Wolfesson. O segredo está no olhar, não no equipamento.
Sou cinema urgente, latente, que incomoda e faz pensar. Sou Almodóvar, Nelson Pereira dos Santos, Kubrick, Glauber. Algumas coisas são definitivas.
Sou Chico Buarque. Sou todas as trilhas de Chico para teatro. Inclusive Cambaio. Sou Tom Jobim, Vinícius de Morais, Chico Science, Renato Russo, Gonzaguinha, Raul, Cássia Eller e Cazuza. Os bons morrem antes.
Sou Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Antonio Nóbrega, Euclides da Cunha, João Cabral, Suassuna. Sou a curiosidade por um Brasil pouco conhecido. Sou a indignação por uma cultura pouco respeitada. Sou Bossa Nova, Tropicália e Mangue Beat. Sou dúvida e antagonismo.
Sou Celebreiro. Quem quiser, que entenda.
l wallace puosso / abr 05 l
Produzido por Wallace às 20h09
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| Quarta-feira , 14 de Setembro de 2005 |

|o som de uma mão batendo palmas|
“conhecemos o som de
duas mãos batendo palmas.
Mas qual é o som de
Uma mão batendo palmas?”
J.D. Salinger
O mestre faz uma pergunta / sem sentido / ao seu discípulo (koan no zen budismo). Na meditação / a resposta pode conduzir a. Iluminação. O silêncio. O silêncio ardente de Gogol / queimando a segunda parte de “Almas Mortas” / em meio a uma crise espiritual. O silêncio / da baixa auto-estima / de Emily Dickson que acreditava / não ser digna / de publicação da sua obra. O silêncio da ausência de quem amamos. O silêncio imposto pelas ditaduras. O silêncio deliberado / como renúncia espiritual. O silêncio de uma partida abrupta, de uma lágrima caindo, de um sorriso se formando. A partida abrupta que deixou / incompleto Woyzec. O silêncio que a santa inquisição abençoou. O silêncio clássico das obras gregas / que se perderam no tempo. O silêncio que se confunde / com invisibilidade / na obra de Thomas Pynchon (para muitos, heterônimo de Salinger). O silêncio por trás das muralhas. Das verdades. Dos amores que perduram entre tormentas ruidosas. O koan é como uma pergunta / que nos obriga / ao auto-conhecimento. O silêncio interno de quem escreve. O poeta grita com a força da alma.
l wallace puosso / set 05 l
Produzido por Wallace às 15h52
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| Terça-feira , 06 de Setembro de 2005 |
marco zeronove
Há nove meses atrás, comecei a trabalhar com esse negócio de blog. Eu, um cara que sempre escreveu contos e poemas com caneta bic em caderno espiral, que sempre rascunhou letras de música em guardanapos, várias e várias madrugadas tomando vinho e guardando belos sorrisos na alma. Eu, que troquei de namorada, montei dois espetáculos de teatro e fui morar com uns amigos. Ganhei uma casa, um santuário, um local para repouso da vida corrida. Produzi um curta-metragem e estreei como vocalista numa banda sofrível. Eu, que quase fui morar no Rio e tentar ser roteirista ou qualquer coisa parecida, mesmo me considerando estrangeiro em qualquer lugar onde quer que eu fosse. Alguns lugares me são caros, outros, sobrevivem na memória. Alguns amigos vieram com o coração escancarado, alguns se foram, geograficamente falando. Eu que escrevi um livro e não consegui patrocínio, mas a edição sai mesmo que seja feita em fotocópia. Porque a insistência é uma virtude. E eu sei que o importante não é a forma, mas o conteúdo. Eu, um cara que um dia cismou de ter um blog. E tornar público, escritos de anos. Reescritos. Porque o pensamento muda, as vontades se alteram, as possibilidades se expandem. E lá se vão nove meses. Indicação no UOL, responsabilidade multiplicada pela expectativa de quem vem pela primeira vez e sente-se atraído a voltar. E a cada semana fica uma pergunta: o que as pessoas achariam interessante ler/ver neste blog? Procuro escrever com sinceridade, de coração, coisas que me mexeriam comigo, chamariam minha atenção. Viver é correr perigos. Exponho-me, portanto, nu. E quero renascer a cada dia. Você me dá a mão e juntos aprendemos um com o outro. Seja (sempre) bem-vindo/bem-vinda ao meu país. E que venham os próximos nove meses.
[WALLACE PUOSSO / setembro de 2005]
Produzido por Wallace às 16h39
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| Sexta-feira , 02 de Setembro de 2005 |
[ QUALQUER PREÇO ]
reflexão em tempos de rancor e cólera

QUE MELANCÓLICOS esses tempos e que vivemos!
Tempos em que as paixões são substituídas pela razão, a doação pelo mercantilismo, tempos em que as pessoas não mais se encontram nessa província chamada São José. Tempos estranhos.
Tempos em que a cooperação saudável que havia outrora entre as pessoas – artistas ou não – agora se transforma em concorrência a qualquer preço...
Nosso pecado original advém da industrialização, do grande campo de empreendedorismo em que essa cidade se transformou. E o espontâneo, onde foi parar? Tudo o que é legítimo e espontâneo torna-se sufocado por uma lógica sistêmica que impregna, toma conta de todas as áreas. Inclusive na arte.
Como aliar o profissionalismo num “mercado cultural” ainda inexplorado com o bom senso? Com a liberdade de criação? Com concorrência colaborativa?
Estou cansado de maquiar minha arte em prol de um modelo estabelecido.
Não quero mais fazer teatro de rua, só porque os teatros são inacessíveis.
Não quero fazer apenas teatro-empresa, SIPAT e outras coisas do gênero apenas e tão somente porque temos inúmeras indústrias e um grande potencial financeiro.
Não quero mais ver músicos mendigando cachês pelos bares.
Não quero que as pessoas pensem que dança é aquela coisa que as academias apresentam todo final de ano, num ciclo repetido e vicioso onde a falta de criatividade e a gana por bilheteria sempre falam mais alto.
Não quero mais ver nossos jovens poetas, jovens atores, jovens músicos, sem direcionamento, sem esperança. Jovens migrando para outros lugares, em busca de melhores oportunidades.
Falta coragem e posicionamento ao poder público.
Falta ousadia. Até mesmo ousadia nossa, os melancólicos que se disfarçam com rancor e “viuvez de esquerda”.
Até quando?
Nossa arte é assim: saudosista, conservadora, melancólica, industrial.
Nosso teatro é eficiente, mas conservador.
Nossa música é pluralista e original, mas não prevê vôos mais altos.
Nossa dança é radicalmente conservadora, chega a agredir os olhos. Salvo uma exceção ou outra. Mas é pouco.
Sinto falta de humanidade na cidade onde vivo. Menos máquina, menos razão, menos embalagem e mais tato, olfato, coração.
Houve um tempo em que artistas podiam ocupar praças, se apresentar em teatros, exercer uma cidadania de fato e direito. Mas, falar que “houve um tempo...” soa saudosista, melancólico, perdido do próprio. Tempo. E talvez assim deva ser.
Melancólico. Como essa cidade. Como um amor pela metade.
Qual é o seu preço?
[WALLACE PUOSSO / novembro de 2004]
Produzido por Wallace às 11h35
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[ Literatura Anterior ]
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