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| Sábado , 26 de Novembro de 2005 |

... ela olhou para o portão de madeira lascada, por uma fresta da janela. Ninguém na rua. Cedo ainda. Tornou a arrumar a cortina de linho puída, já amarelada. Pelo tempo. Suspirou longamente, um suspiro quase desbotado. A casa quieta, ainda guardava ecos de vozes alvoroçadas que há muito não se fazia sentir. Solidão. Ela, sozinha numa casa com reticências. Sobre a velha cômoda de mogno, um porta-retratos. Um só. Memória de um amor emotivo, distante. Na primeira gaveta, cartas amarrotadas pelo manuseio. Cartas não, breviários. O amor só é eterno nos poemas de amor. As palavras já não lhe eram solícitas. Cansaço. Sentou-se na velha cadeira de balanço, olhou mais uma vez em volta e fechou os olhos. Pra frente, pra trás, pra frente, pra trás... Metade dela era saudade e a outra nem nome tinha. Os olhos umedecem mais com o passar dos anos. E as lembranças, como o tambor de uma arma imaginária. Então ela finalmente tomou coragem e apertou o gatilho. Sorrindo, pela primeira vez em anos. Um sorriso sincero. Como há muito não se dava.
|wallace puosso / nov 05|
"Iris", com Judi Dench, Kate Winslet e Jim Broadbent. Direção de Richard Eyre. © 2001 Miramax Films, duração: 02' 24''.
Produzido por Wallace às 14h04
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| Terça-feira , 22 de Novembro de 2005 |
desatando dylan
How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
DIA DESSES li dissertações de bob dylan no livro tarântula - eu já meio alto & ele talvez ainda mais do que eu mas de certa forma sua prosa poética chegou impregnada de novidade meio doida meio verdadeira & perguntei ao band-leader, pseudo-dono do livro, se aquilo tudo tinha lógica & ele assegurou que não era preciso procurar lógica na poesia folk do mais inconformado dos poetas americanos & sim, tentar entrever na amplidão da obra ou nas entrelinhas, algo mais que devaneios lisérgicos & achei isso um tanto estranho mas surpreendi-me ao descobrir frases aparentemente soltas & que formavam uma coerência absurda em seu conjunto. Disse para o cara que o dylan, além de sempre ter cantado mal à beça & aderido definitivamente às manias estranhas que só o estrelismo pop é capaz de suscitar, também havia se imortalizado pelas letras de protesto & criado um maneira especial de escrever músicas, poemas, prosa como por exemplo as que repousavam ali, naquela conversa de madrugada. Pela média de tudo isso, dylan fez-se gênio no sentido amplo da palavra & no que ela tem de mais nobre, com época certa & por estar ativo nas horas & lugares certos & partindo disso já que tudo torna-se festa nessa eterna falta do que fazer, abrimos mais uma cerveja & celebramos o mito.
Como convém.
[WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado em breve]
Produzido por Wallace às 19h25
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| Sábado , 19 de Novembro de 2005 |
tomando um trago num bar com nome de delegacia
OS POETAS NUNCA MORREM, mas aquele em particular, definhou aos trocados, ele sim, um velho safado com seu caderno de notas imundo & cheio de coisas manuscritas para ninguém comentar. Os vickings aparecem por aqui, vez ou outra & fazem questão de dizer, estufando o peito, como sobreviveram ao assédio do óbvio ululante, eles & seus arroubos de cerveja & poesia. Ariclenes era a personificação da dialética no estado absurdo em que corriam soltas as frases feitas no balcão cultural do 26º enquanto outro cara bancou, por duas vezes, o comportado numa faculdade de comunicação, como se fosse sério estar fazendo superior àquela altura dos acontecimentos. Indolente era a nudez daquela atriz que o desbancou em pleno alvoroço no início da noite: Alice & Baco Bacana, tudo conforme manda o roteiro de um filme em preto e branco & inacabado sobre uma dupla que não deu em nada. Se não bastasse, uma constelação barroca de última hora: um figura de cabelos verdes que mais tarde refugiar-se-ia entre os catalães & por lá continua, um baixinho com cabelo de milho tocando percussão, ambos entoando o blues do cachorro que virou sabão no meio da avenida São João, & por fim, um casal de saltimbancos hora frustrados, hora revoltados, mas sempre contundentes, desconversavam sobre os novos trabalhos de Hércules. Puts, se eu dissesse a eles que um dia tocaram a campainha justo naquela hora & quando fui atender pensando ser o jornaleiro ou o entregador de pizza dei de cara com a vizinha com quem estava tendo um ruidoso caso literário, eles não acreditariam se eu por acaso contasse quem eu escondi no guarda-roupas & lá esqueci por tempos & tempos. Mas como isso não interessaria pra ninguém com mais de vinte, só serviu pra todos ali, darem boas gargalhadas, enquanto o dono do bar pedia mais uma rodada de jacaré & itaipava & queijo.
[WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado em breve]
Produzido por Wallace às 20h58
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| Quarta-feira , 16 de Novembro de 2005 |
|coisas pra se fazer na província quando não se está morto|
APÓS UM ANO EXAUSTIVO feito de experiências novas e escolhas inevitáveis resolvi prestar mais atenção à minha volta e tentar entender porque algumas coisas são o que são – de maneira definitiva – e outras nunca são o que aparentam.
Tomando como exemplo figurativo as pílulas – azul e vermelha – com as quais Neo é confrontado no filme Matrix, a vida também nos oferece escolhas. A maior parte das pessoas talvez nem se dê conta disso e ajam de maneira intuitiva. Para uma minoria, no entanto, uma escolha é uma questão lógica, uma ciência pela qual é possível delinear rumos, traçar objetivos. E toda escolha tem seu preço.
Sou artista por escolha. E sempre soube o preço que estaria disposto a pagar.
Moro numa cidade de interior por escolha. Poderia morar em qualquer lugar do planeta - e o ser humano é o único que tem essa capacidade de adaptação. E, mais uma vez, pago um preço por isso.
Trabalho a cinco anos numa ONG também por escolha e, principalmente, por entender que minha arte – ou o quer que eu entenda por arte – não deve (nunca) ter caráter assistencialista e nem depender de ação governamental. A arte, por si só, já tem uma finalidade social.
Isso ficou claro quando visitei a última Bienal de São Paulo. Ao entrar no pavilhão e ver todas aquelas obras espalhadas, me perguntei: pra que serve isso? A quem isso interessa? Ao final de três exaustivas horas, me convenci de que a arte modifica as pessoas, de uma maneira ou outra. Conduz à reflexão. Isso é uma ação social e não é assistencialista.
Saindo da Bienal encontrei um dos vendedores da Revista Ocas e conversamos um pouco sobre várias coisas. Ele, um morador de rua em processo de ressocialização, cheio de vigor e planos para o futuro. Comprei o último número da revista, que traz como principal matéria, uma entrevista com Marcelo Yuca (ex baterista d’O Rappa). Marcelo diz – entre outras coisas – acreditar no “poder do cidadão” para mudar a realidade. Eu também acredito. E por isso faço escolhas e sofro e sou feliz, mas não abro mão do meu poder de decisão entre uma coisa e outra.
A gente vive querendo mudar o mundo. Essa é a grande verdade.
Jorge Braz, diretor artístico do Teatro de Tábuas escreve em um de seus artigos para a Revista Contra Regra (Grande descoberta etílica): “... tudo que passo e que passamos na vida está ligado ao que desejamos desta própria vida e, se a estrada é dura, é porque escolhendo crescer a gente opta por caminhos tortuosos, íngremes e longos. Afinal, ter um celular e carro de última geração, convenhamos todos, é um desejo nada ambicioso, não é?”
E continua: “... para mudar o mundo tem que se começar a mudança por si próprio, depois mudar um e fazer um par, aí vem outro e outro. Para isso acontecer tem que se convencer e ser convencido. Isso se chama desenvolvimento humano e é duro, chato e complicado. A gente lida com o que existe de pior no mundo.”
Escolhi que interferiria nessa letargia que impregna a minha cidade. E assim estou fazendo. Interagindo na arte que é feita na minha cidade, que por sinal, não é o umbigo do mundo, mas é o local que escolhi para o meu desenvolvimento humano.
As dúvidas são sempre em quantidade maior, pode reparar. Tenho certeza de uma coisa: mesmo que eu venha a ter um carro do ano e um celular de última geração, o que mais importa nessa história toda é esse processo rico e criativo que tenho a oportunidade de vivenciar.
E, por compreender isso, faço minhas as palavras de Jorge:“... posso curtir de forma mais adequada o momento brilhante da minha vida, o do meu desenvolvimento humano.”
Isso quer dizer muita coisa.
l wallace puosso / nov 05 l
Produzido por Wallace às 17h25
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| Segunda-feira , 14 de Novembro de 2005 |
l ser poeta l
Gostaria que alguns dias fossem como outros. Que algumas palavras fossem eternas. Gostaria de querer coisas que normalmente ninguém quer.
Querer é um ato ousado.
O não-querer é uma renúncia. Talvez o segredo esteja aí.
Aqui e agora... a poesia ferve nas veias, como o teatro. O ator é o primeiro poeta e vice-versa. Cuidando de sorrisos alheios, plantando carinhos, superando barreiras. Assim é viver. E não deveria ser diferente.
Sorrio para o entardecer que se avizinha e digo pra mim mesmo: "...como sou feliz!..."
...na delicadeza dos seus poemas, tortura-me com as pontas das palavras. Minha arritmia desperta desejos há muito contidos.
Ser poeta é habitar furacões.
l wallace puosso / nov 05 l
Produzido por Wallace às 18h25
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| Terça-feira , 08 de Novembro de 2005 |

sobre metáforas, velharias e outras coisas
Caro Felipe, metáforas foram feitas para algumas poucas pessoas usarem.
Poetas, principalmente.
No mais, elas não servem pra muita coisa. Não servem nem pra esclarecer, muito menos pra confundir. Ficam no meio-termo. Você guarda mágoas de gente que mal merece isso, dá ouvido às pessoas erradas, acredita em verdades alheias, se espelha em pessoas e possibilidades que não lhe cabem e se encerra em metáforas.
A pessoa na qual você tanto se espelha pode ser também a que mais “joga” com as situações que lhe convém. Você já pensou nisso?
Acho esquisito esse distanciamento irreal que existe entre nós. Fazemos parte do mesmo elenco, de uma mesma luta (pelo menos eu penso assim, mas posso estar errado) e no entanto, nos comunicamos por blogs, orkuts... E não temos coragem de dizer às pessoas o que estamos sentindo. Simples? Não, não é. Mas viver é assim mesmo. Somos provados a todo momento.
A gente aprende com o tempo, que nem todas as pessoas são do jeito como a gente gostaria que elas fossem. Aprende que todas as pessoas, todas, sem exceção, são uma coisa na nossa frente e outra nas nossas costas. Isso é do ser humano. Quem não for assim, que seja canonizado logo.
Se alguns falam, comentam, criticam, julgam, estes estão – de certa forma – errados. Porque na verdade, ninguém tem o direito de julgar ninguém. Mas, se falam, algum motivo existe. E as coisas nem sempre são o que aparentam.
Acredito em conversas nas quais olhamos nos olhos do nosso interlocutor.
Esse disse-não-disse, não nos serve pra nada. As velharias precisam ser confrontadas com idéias, propostas, trabalhos inovadores.
Não com magoas e ressentimentos.
E metáforas tampouco ajudam.
Pense nisso.
Abraço, Wallace
Produzido por Wallace às 11h13
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| Domingo , 06 de Novembro de 2005 |
[ O TEATRO ME ENSINOU uma das artes ancestrais do ser humano: contar estórias. Na verdade não ensinou, mas resgatou. Porque nós todos temos a capacidade de contar/relatar estórias a partir da nossa vivência. A contação de estórias é a forma mais simplificada de teatro. Basta um que conte, outro que escute. Quem conta, conta sempre a partir de experiências pessoais. Quem ouve "toma pra si" a verdade do que está sendo contado. E aí se dá a alquimia, o lúdico. Por isso as crianças conseguem vivenciar as estórias com mais facilidade do que nós, adultos. Elas simplesmente "vivem" o que está sendo contado. Você já experimentou? ]
Produzido por Wallace às 14h37
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| Quinta-feira , 03 de Novembro de 2005 |

A Vida é Cheia de Som e Fúria / Sutil Companhia de Teatro - Foto: Flávio Colker
l indício l
- Uma foto. - Uma foto num monóculo. - Monocromática. - Uma época, um tempo. - Alguém sorrindo em preto e branco. - A imaginação colore a felicidade dos retratos mais velhos. - Alguém resolve jogar futebol. - Eu declaro ilegais todas as torcidas organizadas. - Alguém corre atrás do futuro. - As pistas de corrida são ovais. - E o futuro não chega nunca. - Também! O futuro é como uma pintura na Capela Sistina! - Por isso adquiri um conjunto de tintas importadas. - E preparei a melhor tela. - Mas inutilizei todos os pincéis. - Alguém sorri meio sem-graça. - Eu então convido pra dançar no meio da praça. - Com a lua por testemunha. - Alguém acha um motivo.
- E vai embora. - Mentira! - Verdade! - As personagens que crio sempre têm motivos de sobra! - Nesse dia elas estavam um tanto cansadas. - Mentira! - É verdade! - Quando o sol sair saberemos com quantos alguéns se faz o mundo. - Porque se usam tantos óculos escuros? - Não há nada pra se ver lá fora. - Im-pas-sí- vel!...Um raio rasga a noite. - Sob o meu guarda-chuvas só cabe mais um! - Meu tempo é uma rajada de balas silenciosas. - À espreita do melhor lobo. - O lobo é a metáfora da iniciação sexual da menina. - Ela usa de discrição e rasteja pra mais perto. - Já não é mais alguém. - Nessa guerra silenciosa ninguém é tão inocente! - Todo mundo chora. - Eu conto uma história linda e ela para de chorar. - Histórias não adiantam.O que ela quer é voltar a voar pra bem longe. - Eu construo asas para abismos profundos. - Crescer não é nada fácil. - É como um instantâneo atrás do outro. - A foto agora é colorida. - Porque as coisas evoluem. - Mas o sorriso é vermelho, bem vermelho. - Marcas de batom no colarinho, são um forte indício! - Você sabe que sim! Já discutimos isso! - Eu contrato uma atriz de cabaré. - Mando erguer teatros e mausoléus para velhos artistas. - Eu convoco alguns sorrisos e uns apertos de mão! - A droga do filme acabou... - A gente sempre acha que a arte muda o mundo. - O filme acabou, o dia raiou, as histórias não mais convencem. - E os ânimos às vezes oscilam entre o cinza e o amarelo! - Ah, não! - Ah, sim! E depois morrem...Você sabe. - Como tudo é finito. - Uma foto. - Uma foto num outdoor piscando em frente à minha janela. - Você já não mora mais em casa.
- É só uma lembrança num retrato monocromático… - ... eu fecho meus olhos encharcados. Viver é sempre um risco...
l wallace puosso / nov 05 l
Produzido por Wallace às 16h15
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| Segunda-feira , 31 de Outubro de 2005 |
l lições de abismo l
"Se algum dia participares de um ritual destes e
tempos depois não mais o fizeres, ainda assim
sempre haverá em seu coração o desejo de reaver
os momentos passados no círculo das feiticeiras,
sob um céu claro, cheio de estrelas e uma grande Lua.
Este é o momento no qual a Deusa toca a sua alma,
e a torna Dela, para sempre."
(Doreen Valiente e Evan John Jonnes,
no livro Feitiçaria, a Tradição Renovada)
Hoje quero encontrar / o caminho de volta. Não sei por onde começo / só sei que não quero sofrer. Lá fora, só silêncio e um imenso vazio.
“Alguma coisa se perdeu bem no fundo do porão”. O que se perdeu? “Não há mais tempo pra respostas.
Hoje quero encontrar / o caminho de volta. Ando pela cidade: telefones não tocam, cartas não são lidas / espalhadas sob a porta / não existe mais saída.
“Esse trânsito parado não leva a lugar algum”. Tente um atalho. Eu apenas esboço um sorriso.
Quando você acordar e olhar com mais atenção / vai perceber que todo amor / só é verdadeiro / se for sincero & por inteiro. Eis a resposta.
Não vejo o que você vê / nem entendo o que você diz / mas sei o que meu coração / tem coragem de sentir: sons & palavras de afeto / já não fazem mais sentido.
Lições de abismo servem só / pra quem tem asas firmes e perdeu o medo de sentir medo / de dormir no escuro / de buscar o que há do outro lado.
Vai: pode partir. Aqui, só quem sobrevive pode ser capaz de sorrir.
Por enquanto tudo mudo / o meu mundo muda conforme a estação / suas folhas caem, caem / enquanto ainda estou no verão.
Veja só o que ficou: esse medo presente / pelos cantos da casa / o medo de segurar a minha mão / de seguir em frente e só. O medo de seguir adiante e superar rotinas congela os pés no chão.
Lições de abismo e luzes no fundo do porão.
Se você quiser alguém com quem conversar / com quem conviver / estarei sempre aqui. No caminho de volta.
l wallace puosso / nov 05 l
Produzido por Wallace às 00h40
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[ Literatura Anterior ]
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