WALLACE PUOSSO

Segunda-feira , 26 de Dezembro de 2005

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão
matinal, direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ANO NOVO que mereça esse nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo. Eu sei que não é
fácil, mas tente, experimente consciente.

É dentro de você que o ANO NOVO cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade



 Produzido por Wallace às 13h28 [] [envie esta produção]


Terça-feira , 20 de Dezembro de 2005

cartas sem resposta


SEMPRE QUE O NATAL SE APROXIMA, Javier fica triste. Pensa nas crianças mortas pela fome, nos mais velhos, nos que dão vida ao vão dos viadutos, nos que estão nus da alma pra baixo. Pensa naqueles que tem vontade e não podem, nos que ainda querem ser alguém. Pensa – afinal de contas – que o mundo é injusto e não há muito que se fazer quanto a isso.

Quando pequeno, Javier escrevia cartas ao Papai Noel. Até que um dia se cansou. As respostas nunca chegaram.

Javier nunca mais escreveu pra ninguém. Cartas. Telegramas. Cartões-postais.
O endereço continua o mesmo. Ele mora na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua desde muito tempo. Nem saberia dizer quanto.

Sua casa fica no final da rua, uma casinha meio sem graça, com a pintura gasta, a cerca quebrada, o portão enferrujado. E mato juntando no quintal.

Todos os dias, ele busca ocupação pelas outras ruas da cidade. Busca trabalho pra ocupar o tempo e não ficar em casa pensando em crianças mortas pela fome e coisa e tal.

Não há mais vagas –dizem – pra quem já passou dos cinquenta.

Então, pelo oitavo ano seguido só lhe sobra um tipo de trabalho: ser papai noel.

Então, pelo oitavo ano seguido, sem outra opção, ele veste aquela roupa abafada, cola aquela barba na cara, treina um ho-ho na frente do espelho enquanto escova os dentes e se dirige ao centro comercial da cidade.

Lá, passa horas conversando com crianças, muitas crianças. Enquanto os pais fazem compras.

E Javier fica triste. Ainda mais triste. Não por ser papai noel, mas por ver que entre aquele formigueiro de gente indo e vindo, num consumismo desenfreado e sem lógica, os únicos olhos, sorrisos e pedidos sinceros são daquelas crianças, que depositam nele, Javier/papai noel seus sonhos e esperanças.

O que elas têm de mais belo e puro.

E seus olhos lacrimejam por pensar que as pessoas não dão a mínima para o significado do natal. Mas ele sabe que, apesar de tudo, nunca se deve enganar as crianças.

Javier fica triste, mas sorri por fora. Um sorriso sem promessas. Como cartas que jamais terão respostas.

E todas as noites assim que o expediente termina, ele se despede sorridente de todos e volta solitário para casa.

E pensa que o mundo poderia ser um pouco melhor se fosse da maneira como as crianças imaginam.

Ele ainda é capaz de sentir sensações diversas, rir, chorar, se emocionar.
Mas não consegue ver o natal como as pessoas vêem.

Às vezes, sorrir é a melhor maneira de chorar.

 

|wallace puosso / dez 05|


conto originalmente escrito no blog http://escrevinhadores.blogspot.com, no qual também comecei a colaborar neste mês.



 Produzido por Wallace às 00h39 [] [envie esta produção]


Sábado , 17 de Dezembro de 2005

|plenos planos|

 

 

UM ANO DE BLOG. Parece que foi ontem que tudo começou. Tanta coisa aconteceu nesses doze meses! Quando surgiu a idéia de um blog, foi também pela necessidade de tornar público – de maneira econômica e ampla – temas nos quais estava/estou trabalhando. Um deles fará parte do livro “Estrangeiro”.  Com esse tema, desenvolvo as questões do desterro e de comunidades com população transitória – como é o caso da cidade onde moro, por exemplo. O livro ainda não saiu por questões orçamentárias. Custa caro publicar livro no Brasil. Mas, o importante é não desistir nunca! Outro tema sobre o qual estudo é o tempo. Dele, desmembro o silêncio e a memória. No teatro, sigo com Édipo Rei (já com mais de 20 apresentações em algumas cidades do interior paulista) e iniciei há coisa de mês e meio, um projeto chamado “Sete Pecados Capitais”. Uma releitura dos sete pecados feita por uma poetisa russa, radicada no Brasil. Nosso processo de trabalho levará aos palcos a releitura desses pecados a partir de ritos religiosos – mais precisamente o Candomblé. Outro projeto interessante no qual estou envolvido (pela ONG Celebreiros) é o “Nas Asas do Cinema” que leva curtas-metragens nacionais para adolescentes da rede pública de ensino. A gente se diverte ensinando. Provoca fazendo teatro. Trata de arte como processo transformador, libertador. Parece pouco mais não é. Vamos em frente.

 

 

|wallace puosso / dez 05|

 Produzido por Wallace às 17h09 [] [envie esta produção]


Terça-feira , 13 de Dezembro de 2005

a dialética de godard

 

Amado. Odiado. Godard, metralhadora giratória em tempos de nulidades. Contra um cinema imperialista que re-conta histórias alheias conforme convém. A história é sempre contada sob a ótica de quem vence. A guerra. A invasão. Hollywood é um gigante e faz barulho. Mas Godard é maior que tudo isso. Com suas dissonâncias cinematográficas, enquadramentos não-óbvios e aforismos. Não escolhe lado, nem se engaja em discursos de fácil digestão. Sua dialética é clara: prefere rastros de dúvida ao invés de organizar certezas. Quanto mais o cinema se parece – entre si – mais Godard se distancia desse eixo. Amado. Odiado. Discurso direto.

|wallace puosso / dez 05|



 Produzido por Wallace às 08h39 [] [envie esta produção]


Quinta-feira , 01 de Dezembro de 2005

COISAS PARA SE TER EM MENTE EM MEIO AO DESERTO

 

“Há tempos são os jovens que adoecem

há tempos o encanto está ausente

e há ferrugem nos sorrisos...”

 

EXISTEM COISAS sobre as quais eu preferiria não falar. Mas as coisas mudam. E eu me sinto quase na obrigação de dizê-las.

Não suporto opressão. Nenhuma forma de opressão.

Vivo numa república democrática onde tenho direitos garantidos pela constituição, direitos esses que às vezes (em boa parte das vezes) vemos desrespeitados.

Então, de uma hora para outra me cerceiam o direito à voz. Proíbem-me de trabalhar, fecham o semblante, não há diálogo. E tudo, por vaidade pessoal.

Tenho saboreado o gosto amaro desta “ditadura disfarçada” que impera nessa cidade, com certa repugnância e uma irritação permanente que às vezes beira o insustentável.

Posso arriscar-me a dizer – e com certeza vou errar muito, muito pouco – posso dizer, que vivo numa cidade de mentira. Uma cidade quase fictícia, com suas multinacionais imponentes e distantes, suas praças com fontes de água não tão límpidas, seu centro comercial com fachadas novas, asfaltos novos e canteiros de gosto arquitetônico e paisagístico duvidoso.

Uma cidade dormitório, que fala outros idiomas e onde não se criam raízes porque as árvores da tradição não são (ou não conseguem ser) frondosas.

E temos também uma cultura fictícia, quase inexistente, abalizada por uma instituição comprometida com o próprio umbigo onde prima-se pelos números, vastos números, e uma estranha postura elitista.

E os artistas que nesta cidade habitam também são quase fictícios, com seus umbigos reluzentes. Alguns se acham os tais. Estrelas cintilantes no meio do deserto.

Na minha cidade, o solo é árido há anos. Tudo o que se planta não floresce.

Minha cidade fictícia é uma cidade que não mais sorri, é uma cidade de pessoas distantes, ausentes, com ferrugem no sorriso, pessoas que não se encontram simplesmente porque há muito tempo já não há onde se encontrar.

Não quero falar sobre tudo o que já foi dito.

Espero que a ditadura acabe logo.

 

l wallace puosso, do livro "Estrangeiro" a ser lançado em breve l

 Produzido por Wallace às 11h22 [] [envie esta produção]



[ Literatura Anterior ]
 
 
 
       
   

 

::INDICAÇÕES DE ROTA::

IDENTIFICAÇÃO: Ator e diretor de teatro, poeta e compositor. Libra com ascendente em capricórnio. 3º decanato. Lua em Libra.

TUDO COMEÇOU EM: Dois mil e quatro.

GOOD TRIP: viajar; sair com os amigos; namorar; ir ao cinema; um violão na beira da fogueira; um filme europeu em casa com os amigos; ver peças teatrais; ensaiar peças teatrais; ler um bom livro; sair pra fotografar

SONHOS: viver de arte; escrever livros, conhecer a Espanha, a Grécia.

BAD TRIP: política partidária; gente burra; gente mal-educada; todos os tipos de dogma.

LITERATURA ANTERIOR

  01/05/2008 a 31/05/2008
  01/03/2008 a 31/03/2008
  01/02/2008 a 29/02/2008
  01/01/2008 a 31/01/2008
  01/12/2007 a 31/12/2007
  01/10/2007 a 31/10/2007
  01/09/2007 a 30/09/2007
  01/07/2007 a 31/07/2007
  01/06/2007 a 30/06/2007
  01/05/2007 a 31/05/2007
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/09/2006 a 30/09/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/07/2006 a 31/07/2006
  01/06/2006 a 30/06/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/02/2006 a 28/02/2006
  01/01/2006 a 31/01/2006
  01/12/2005 a 31/12/2005
  01/11/2005 a 30/11/2005
  01/10/2005 a 31/10/2005
  01/09/2005 a 30/09/2005
  01/08/2005 a 31/08/2005
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004




Procure uma entidade beneficente:

antispam.br

OUTROS SITES
    RECANTO DAS LETRAS
  ESCREVINHADORES
  FOTOLOG WALLACE
  Teatro - Cia. Fábrica de Cenas
  Teatro - Cia. Teatro da Cidade
  Centro de Artes Cênicas Walmor Chagas
  Teatro de Tábuas
  Teatro - LUME
  Teatro - Sutil Companhia
  Teatro - Theatre du Soleil
  Teatro - Zecora Ura
  Teatro - REDEMOINHO
  Teatro - Grupo Tempo
  Ateliê de Criação Teatral
  Teatro - Odeon Cia. Teatral
  Teatro - Barracão Teatro
  Teatro Brasileiro
  Teatro - Biblioteca Virtual
  Teatro - Enciclopédia ECA
  Teatro - Proscênio
  Teatro - Companhia do Latão
  Teatro - Oficina
  Teatro - Parlapatões
  Teatro - Grupo Teatro da Terra
  Teatro - Etc e Tal
  Teatro - Cirque du Soleil
  Teatro - Antonio Nóbrega
  Teatro Brincante
  Teatro - Beckett
  Teatro - Gerald Thomas
  Teatro - Odin Teatret
  Teatro - Companhia do Feijão
  Teatro da Vertigem
  Teatro do Pequeno Gesto
  Teatro - Grupo Galpão
  Teatro de Anônimo
  Teatro - Grupo Tá Na Rua
  Teatro - Projeto Mundo ao Contrário
  Teatro - Dario Fo
  Teatro - Fraternal Companhia
  Teatro - Pina Baush
  Teatro - Os Satyros
  Teatro - Mário Bortolotto
  Teatro - Denise Stoklos
  CPT - Centro de Pesquisas Teatrais
  Teatro Fábrica São Paulo
  Teatro e Literatura - Tchekhov
  Teatro - Cemitério de Automóveis
  Centro Teatro do Oprimido
  Teatro - Jornal Sarrafo
  Teatro - Guia OFF
  Links sobre teatro
  Teatro - Na Cena
  Literatura e Teatro -
  Música - REM
  Música - Pearl Jam
  Música - Chico Buarque
  Música - Tom Jobim
  Música - Tom Jobim
  Música - Caetano Veloso
  Música - Morrissey
  Música - Bob Dylan
  Música - Cazuza
  Música - Radiohead
  Música - Manu Chao
  Música - Chico César
  Música - IRA!
  Música - Orquestra de Viola
  Música - Cordel do Fogo Encantado
  Música - Arnaldo Antunes
  F.UR.T.O.
  Música - Mirian Cris
  Música Eletrônica - Rebordose
  Música - Barbatuques
  Música - Velhas Virgens
  União Brasileira de Escritores
  Cultura e Literatura
  Revista Preá
  Carta Capital
  Literatura - Rubem Alves
  Literatura - Portal Literal
  Revista Caros Amigos
  Poesia - Casa do Sol
  Outra Coisa
  Revista Cult
  Literatura - Palavreiros
  Literatura - Revista Agulha
  Literatura - Materika
  Literatura - Alforja
  Literatura - Baquiana
  Literatura - Bestiário
  Projeto Diário de Literatura
  Literatura - Letra e
  Literatura - Paulo Leminski
  Literatura - Marcelo Mirisola
  Literatura - Pablo Neruda
  Literatura - Vinícius de Moraes
  LIVROS VIRTUAIS GRATUITOS
  El Poder de La Palabra
  Literatura - Morfina
  Garotas que dizem ni
  Academia Brasileira de Cordel
  Literatura - Usina de Letras
  Cinema - Michael Moore
  Cinema - Porta Curtas Petrobras
  Cinema - Unibanco Arteplex
  Cinema - Curta Agora
  Fotografia - Fotógrafos de Pará
  Fotografia - Sebastião Salgado
  Fórum Social Mundial
  Fundación Cultural de las Américas
  Produtora - Academia de Filmes
  Produtora - Cara de Cão
  Produtora - Cine
  Produtora - Companhia de Cinema
  Produtora - Conspiração Filmes
  Produtora - FilmPlanet
  Produtora - Jodaf Mixer
  Produtora - Zero Filmes
  Produtora - Casa de Cinema de Porto Alegre
  Produtora - Yes
  Blog - Gerald Thomas
  Blog - Leila Pinheiro
  Blog da Dazinha
  Blog - Nanda Rovere
  Blog - Decca
  Blog - Vermelho Carmim
  Blog - Arte e Política
  Blog - Quarta Parede
  Blog - Marisa Lobo Viana


VOTAÇÃO
    O Diário de Bordo agradece a sua nota. Mas, sua presença aqui é sempre importante!



O que é isto?