WALLACE PUOSSO

Quinta-feira , 23 de Fevereiro de 2006

Simone Spoladore no espetáculo "Alice" da Sutil Cia de Teatro

 

alice & baco bacana no país da banana

 

ALICE RESOLVEU DAR UM TEMPO & parou pra tomar um trago com um cara estranho com um chapéu meio barroco & roupas saídas de algum bazar hans staden & lá pelas tantas da madrugada ela apanhou um manuscrito empoeirado em algum canto & sussurrou coisas impublicáveis, dizendo entretanto, que quem estava dramatizando o papel era eu. Imagina só: Fulano, Beltrano & Ciclano jamais aprovaram alguém com menos de um metro & sessenta falando coisas sérias & é claro que isso exclui as atrizes senão, o que seriam das lagartixas? A bem da verdade, coca-cola & macieira é uma mistura perturbadoramente infernal & dá fluidez ao espírito. Alice subiu no primeiro carro que surgiu, desconsolada com leituras dramáticas & cantadas baratas: desconfio que o fez por uma saudade danada do cheiro das glicínias na primavera & qualquer dia desses é capaz de tornar-se uma roira perfidamente sutil, ao som de uma rumba louca em pleno carnaval. Era uma vez nos anos cinqüenta & lá se foi a turma mais animada que se tem notícias. Quando o Estranho Simpático adentrar no Saloon Grunge, já irá longe a gaivota psicodélica que jamais fez verão acompanhada da salada insosa & desvairada em que se tornou as cabeças pensantes dessa cidade. Ao fim da noite, sucumbo ao sabor da felicidade & acqua fresca ao lado de um corpo claro & satisfeito & confabulo olhando pro teto quadriculado a procura de estórias & achando que todos chegaram (sempre chegam) a alguma definitiva conclusão: depois da invenção da roda, o que realmente faz a diferença é a banana.

 

 

[WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado “só Deus sabe quando…”]

 


Esse conto refere-se ao carnaval de 93, quando o SESC lançou como tema: “Baco Bacana no País da banana. Daí  título do conto. Era um típico carnaval de salão, com banda ao vivo, decoração lúdica e uma enorme mesa onde foram servidos frutas tropicais. Um conto com o bom humor que permeava as mesas do bar grounge 26º no final das noites e à Alice, metáfora de uma paixão quase secreta. HÁ TEMPOS SÃO OS JOVENS QUE ADOECEM...

 Produzido por Wallace às 15h44 [] [envie esta produção]


Segunda-feira , 20 de Fevereiro de 2006

meias verdades

 

 

·         Viajar tem seu lado fortemente sedutor. É magnifico passar pelos lugares. A sensação de jamais pertencer a um lugar que seja. Olhando pela janela, a paisagem distorce-se veloz com suas imponentes serras e cerrados a se perder a vista. Sinto-me muitas vezes mínimo e grato por existir.

 

·         O maior prazer que tenho ao viajar é sempre a possibilidade do retorno.

 

·        Somos um povo agraciado. Felizes com quase nada. Um povo sofrido, mas anestesicamente feliz, aparentemente de bem com a vida. Coisas típicas de trópicos. Talvez isso explique muita coisa.

 

·         Tudo termina quando viramos dono, com certificado de posse outras coisas. Dar e ter liberdade são coisas essenciais.

 

·         Há sempre alguém após a saída de emergência. Experimente.

 

·         Palavras jamais dominam a noite. Eis aí um grande mistério.

 

·         A memória é o paraíso e o gatilho da arma.

 

·         Os pequenos e essenciais ritos: conversa com amigos, o violão, a fogueira à beira mar, o fondue nas noites frias, o aconchego do blues e do vinho, a poesia, um filme de arte, um bom livro...

 

 

[WALLACE PUOSSO, reeditando]



 Produzido por Wallace às 19h47 [] [envie esta produção]


Quinta-feira , 16 de Fevereiro de 2006

foto: Sebastião Salgado, do livro "Terra"

cena em relevo, retrato em sépia

 

SEVERINO ANDAVA TRANQUILO por uma rua qualquer, olhar perdido, cantarolando uma canção qualquer, dessas sem verso nem refrão. Severino padrão, igual a tantos outros que perambulam pelas ruas. De repente impulsionado por nada dobrou uma esquina, oitocentos metros depois outra & três casas depois adentrou sorrateiro por uma porta suspeita, dessas com tinta descascada & faltando número, subiu apressado quatro lances de escada & num corredor com lâmpada queimada entrou num quarto suspeito, abriu uma cachaça barata, dessas com tampinha e nome esquisito, ligou no jornal das oito & enquanto cid  moreira centenário & absoluto discorria sobre os males do homem, Severino enforcou-se com a gravata nova no encanamento do banheiro malcheiroso e num canto da boca um sorriso: teria enfim a paz, seria enfim feliz, ele que quase conseguiu, quase se formou, quase se casou, quase venceu, quase subiu na vida, quase conseguiu ser ele mesmo, Severino com um quase sobrenome como tantos outros severinos quase gente em meio ao buraco negro da cidade grande, ele um quase severino.

 

[WALLACE PUOSSO, reeditando]


música do dia: Too Much to Lose – Jeff Beck (CD There & Back, 1980)

leitura do mês: Wunderblogs.com - vários autores / Apresentação Ivan Lessa (Ed. Barracuda, 2004)

filme: O Declínio do Império Americano - Direção e Roteiro / Denys Arcand (Canadá, 1986)          



 Produzido por Wallace às 17h40 [] [envie esta produção]


Terça-feira , 14 de Fevereiro de 2006

foto de Roberto Russo / Praia de Promirim-2003

 

os escafandristas estão chegando

 

 

DEPOIS DE DIAS, no ar um ato de paz & amor, cabeludos dissertando sobre woodstock ou qualquer coisa que o valha, eis que resolveram finalmente pôr um pouco mais de ordem na ordem do dia. No poente do ano, eis que alguém saiu bradando a plenos pulmões por entre as barracas de refugiados do lugar-comum: “Os escafandristas estão chegando! Os escafandristas estão chegando! “ - como se fosse a coisa mais sagrada. Na trilha íngreme que costeava o mar arredio, os últimos moicanos aproximavam-se ao som de “ahooo”, prometendo uma noite de guerra. Horas depois, quando o Conselho discernia sobre os fatos mais recentes, ao som do vinho de garrafa barata com nome de santo & entoando a plenos pulmões “A Árvore da Montanha”, os ânimos acalmaram-se. A grande novidade da caserna improvisada foi o elevado número de garrafas per capita & quem mais sofreu com o fato, acabou tombando pesado ao lado da Grande Fogueira. Uns de sono, outros de porre. No dia seguinte, o nem tão saudoso senhor detentor de várias aposentadorias no Congresso Nacional, chamou três moicanos para o cargo de vereança, também pleiteado por pelos capitães-de-areia  Nemo & Namor. Quase fundaram, a contragosto, a República de Antigos, próximo ao principado de Paraty. Os escafandristas certamente fizeram la diference no momento crucial & tragicômico da escolha, mas nunca tomaram para si a responsabilidade pelo ato. Se já não era pouco para a Caravana da Alegria & da Liberdade fechar  sua participação na transição de mais um ano, eis que um sujeito desavisado, com nome de americano, esqueceu quem era, numa disritmia documental, sob a mesa da taverna do velho & bom Getúlio. Perdeu também seu cartão bancário & por pouco volta pra casa nadando. Sem chance.

 

[WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado “só Deus sabe quando…”]

 

 

Esse conto remonta a um período compreendido entre os anos de 1992-96, período festivo em que os acampamentos eram motivos de transgressão, a juventude estava efervescente em todos nós. Compúnhamos uma turma relativamente grande, onde os assuntos abordavam – com propriedade - desde a função transgressora da arte até a ascendência da esquerda. Quando ainda havia motivos pra se comemorar alguma coisa. A literatura registra assim, uma fatia do tempo. Eterniza, torna humana a poética da utopia. Todos sonhavam com um mundo melhor. Ainda tínhamos coragem pra mudar um estado de coisas. Quem roubou nossa coragem?



 Produzido por Wallace às 12h16 [] [envie esta produção]


Sexta-feira , 10 de Fevereiro de 2006

| breve história de uma infância tardia |

 

DUAS CRIANÇAS NA VARANDA, duas crianças brincando / felizes com alguma coisa / de mãos dadas, sorrindo & brincando / duas crianças na varanda olhando o sol se pôr, sem olhar a vida passar (sobram-lhes sonhos & utopias) / cedo então descobrirão que o mundo não é tão colorido & suave nem cheio de flores & fadas como as histórias que lhes contam / talvez elas nem acreditem / mas estamos sempre tentando / voltar para algum lugar (isso talvez seja um bom sinal) / tentamos em vão não andar em círculos, mas a vida às vezes é repetitiva e isso talvez nem seja regra (o que seria demais para qualquer um) / duas crianças na varanda: sem comparações, mas elas são mais felizes do que ele poderia, elas & ele olhando o sol se pôr / todos acreditando em algo, sempre.

 

| wallace puosso / fev 06 |



 Produzido por Wallace às 23h59 [] [envie esta produção]


Terça-feira , 07 de Fevereiro de 2006

l nova velha estória l

 

  

Os olhos do ídolo impassível

A sexualidade ambígua dos anjos

Um eremita em busca de si

A atitude heróica do mártir

 

O vôo certeiro do falcão

Que infalível se define

Não por ideal, mas por necessidade

Como a ninfeta carente nos braços do lobo

 

Eis a língua materna do mundo

Com seus conselhos submersos

Eis a magia perdida & estancada

Pelo passar dos anos

 

A criança sorria para os seus fantasmas

Hoje, assusta-se com o que vê

E já não há brilho nos olhos

Nem tanto do que sorrir

 

Tudo fica sério & sem cor definida

Quando se perde a inocência

 

 

l wallace puosso / jan 06 l



 Produzido por Wallace às 00h31 [] [envie esta produção]



"Nova Velha Estória" é uma encenação extraída de um repertório de narrativas que há séculos se transmitem de pais a filhos, sem que a estrutura se altere. Vem à tona neste trabalho a imaginação popular, alicerce antiqüíssimo sobre o qual a cultura ocidental erigiu o teatro.
Baseado em uma história simples e muito conhecida, o espetáculo não mostra surpresas e nem desdobramentos que possam diversificar o campo dramático. Reforçando ainda mais esses limites, o roteiro ignora as versões do conto popular, geralmente intercaladas por advertências moralizantes, e conserva apenas a seqüência de episódios.
Circulando fora do aconchego familiar, a velha história de Chapeuzinho Vermelho deve, para poder reviver, forjar entre o palco e a platéia um laço da mesma natureza que aquele que se estabelece nas transmissões orais. Para deixar bem claro que o que se procura é uma comunicação essencial, "Nova Velha Estória" é contada em uma língua inexistente.

Mariângela Alves de Lima
Crítica de Teatro



 Produzido por Wallace às 00h31 [] [envie esta produção]


Segunda-feira , 06 de Fevereiro de 2006

 

| GRAVADOR DE SENTIMENTOS |

 

 

AINDA QUE BORREM SUA MAQUIAGEM

COM A LÁGRIMA CAÍDA;

AINDA QUE TE MANCHEM TOTALMENTE

O NOME, A IMAGEM, O ESPÍRITO

COM O SANGUE DA INJUSTIÇA;

AINDA QUE TE ENCHAM O EGO,

DE CINZAS, SOMBRAS E DORES

COM MÃOS NÃO DADAS;

AINDA COM A GARGANTA PRESA,

DO CHORO NÃO GRITADO E DO GRITO NÃO CHORADO,

POR NÃO TER TE DEIXADO DAR APENAS UM SORRISO.

 

 

AINDA ASSIM, NÃO CONSEGUIRÃO

DESTRUIR TUA ALMA E TUA AURA.

ÉS, COMO FÊNIX, AQUELA

QUE SE REFAZ DAS CINZAS.

 

 

E SERÁS, ETERNAMENTE,

A TERRA DAS MARAVILHAS.

 

 

Escrito por Ana Clara


Ana Clara é atriz, poetisa e artesã.

 Produzido por Wallace às 14h59 [] [envie esta produção]


Sábado , 04 de Fevereiro de 2006

lista de coisas   


 

Disco novo do hit parade, discoteca na garagem de casa, bilhetinho da namorada, bolinha de gude colorida, corrida maluca, autorama, ultraman, trem elétrico, queimada na rua, futebol na chuva, beijo escondido, segredo de amigo, pera, uva e maçã, carrinho de rolimã, coleção vaga-lume, hanna barbera, perdidos no espaço, banco imobiliário, vila sézamo, figurinhas repetidas para jogar bafo, figurinhas premiadas para trocar por bicicleta, figurinhas de chicle com jogador de copa, seleção do telê santana, cheiro de material escolar novo, caderno brochura, excursão para o zoológico, tênis bamba, círculo do livro, emília, turma da mônica, modelos revell, quebra-cabeças com mil peças, conquistar a menina mais bonita da sala na próxima festa da escola, jogar war valendo conquista do mundo, passar cola pra todo mundo no fundo da sala. Algumas dessas coisas são responsáveis por um negócio chamado saudade. Sinto e não nego.

 

 

|wallace puosso / jan 06|

 Produzido por Wallace às 17h57 [] [envie esta produção]


Quarta-feira , 01 de Fevereiro de 2006

Porque as mulheres se identificam tanto com Amélie?

 

Depois de um dia corrido, um amigo me faz essa pergunta: "Porque vocês mulheres, se identificam tanto com Amélie?"
Na hora não soube responder, até porque não me identifico com ela, mas admiro a personagem. Amélie cresceu dentro de uma familia certinha, correta, dentro dos padrões, uma familia pragmática e metódica. Seus pais, por medo, cuidado e zelo excessivo, proibiam a criança Amélie de fazer brincadeiras banais que todas as outras crianças poderiam fazer. A menina então, pra se cristalizar e não se deixar levar pela revolta, resolveu criar um mundo particular, de fantasias. Como faria qualquer outra criança diante da mesma situação...
Mas a menina cresceu, e diante das novas possiblidades da vida, ela resolveu levar suas fantasias para o mundo real. É isso que me encanta em Amélie.
Ela não é passiva, não espera acontecer, ela faz a sua hora, o tempo todo!
Amélie se apaixona e resolve conquistar seu amor de um jeito inusitado, misterioso... Se mostrando ao homem que amava, sem se mostrar.
Amélie instiga o pai metódico e organizado para uma vida de aventuras... ( Se esse anão pode. Porque eu não posso?)
Amélie se revolta com o dono da quitanda e resolve deixá-lo louco.
Amélie não deixa que o destino a domine. Ela é quem domina seu próprio destino!
Amélie não se deixa levar é ela quem leva...
Amélie encanta por seu modo de se encatar com a vida...
É por isso que todas as vezes que me vejo passiva diante da vida, esperando que algo emocionante aconteça, sentada em minha cama e descontente é que penso em Amélie.
Aí então, eu resolvo que sou dona da minha história. Eu mando em minha vida...E tenho todas as forças pra fazer dela, o que eu quero que a minha vida seja!

 

Por Viviani Leite (texto originalmente escrito no blog http://vermelhoreal.blogspot.com)

 


Amélie é personagem vivida pela atriz Audrey Tattou do filme "O Fabuloso Destino Amélie Poulain" do diretor Jean-Pierre Jeunet

 Produzido por Wallace às 17h00 [] [envie esta produção]



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::INDICAÇÕES DE ROTA::

IDENTIFICAÇÃO: Ator e diretor de teatro, poeta e compositor. Libra com ascendente em capricórnio. 3º decanato. Lua em Libra.

TUDO COMEÇOU EM: Dois mil e quatro.

GOOD TRIP: viajar; sair com os amigos; namorar; ir ao cinema; um violão na beira da fogueira; um filme europeu em casa com os amigos; ver peças teatrais; ensaiar peças teatrais; ler um bom livro; sair pra fotografar

SONHOS: viver de arte; escrever livros, conhecer a Espanha, a Grécia.

BAD TRIP: política partidária; gente burra; gente mal-educada; todos os tipos de dogma.

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