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| Quinta-feira , 30 de Março de 2006 |

(EN)COBRIR / DESCOBRIR
oculto relatos
mostro-lhe outra face
invento hist órias
faço-me viva
dissimulo/passo
no rosto: pó, lápis, batom
disfarço-me
delato o verdadeiro EU
(re)vivo cada instante
revelar ou não revelar?
[Ana Clara Galvão - março/06]
Produzido por Ana Clara às 12h23
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| Segunda-feira , 27 de Março de 2006 |

d e s p l u g a d o
OS CANIBAIS CONTEMPORÂNEOS / verdadeiros devoradores de inteligência (?) / utilizam-se de controles remotos / para serem apreciados / degustados, digeridos garganta abaixo
A música é póstuma à palavra falada / a música
O prazer da fêmea é biológico & esparso / infinita sensação / de choque & irradiação
O medo guia o mundo rumo ao desconhecido
Minha geração cresceu espremida / entre fardas & o nada / parecido com nada
Antes, com a ditadura / sabia-se quem era o inimigo / (o alvo de todo o ódio) / hoje, sabe-se que o inimigo continua ali / forte & poderoso como sempre / com a única diferença que agora
não se sabe bem quem ele é
Sem chance
Fantasias masculinas / são como colchas de retalhos
Notórios são os barões da arte / os sapos gordos que controlam a cultura pop / desde os últimos suspiros / de uma tradição européia / esfacelada pelo poder americano
O cinema europeu / ainda é o melhor cinema do mundo / ainda
Todo mito é flexionado / pela cultura das mais diferentes civilizações
Quero estender-me póstumo através da obra / a obra
Ficar para sempre através da morte / a morte
(o homem deveria andar sobre quatro patas: seria mais fácil manter o equilíbrio)
[WALLACE PUOSSO, reeditando]
Produzido por Wallace às 17h20
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| Quarta-feira , 22 de Março de 2006 |
2X50 Anos de Cinema Francês, de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville (1995)
CLARICE / HOMERO
Ele: cabelos longos, pele clara, desconhecido.
Ela: cabelos curtos, estrangeira.
Um amor sem defeitos
Caminho com direções opostas
E com saudade
No pensamento / beijos (a)firmados
Lembram duas crianças brincando
Hoje, pintarei com cores raras
teu olhar vazio / sorriso radiante
Um futuro próximo a passos curtos
Clarice somente sente frio
Homero, no calor da distância, perde o tom
Quanto custa ser feliz?
Diz!
[Ana Clara Galvão - março/06]
Produzido por Ana Clara às 15h52
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| Segunda-feira , 20 de Março de 2006 |

espetáculo "Alice" da Sutil Cia de Teatro/2003
l teatro de sombras l
Caminho lento / um retrato em três por quatro / orações a um deus pagão / Caminho etéreo / ao trágico alheio que nos une / e nos reparte ao meio / Caminho incerto / com olhos abertos / Caminho desperto / em busca de uma manhã que seja / uma manhã de sonho e sol
l wallace puosso / jun 05 l
Produzido por Wallace às 12h16
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| Sexta-feira , 17 de Março de 2006 |

| fragmentos geográficos |
“Estão todos aí?” (PAUSA) “Estão todos aí?”.
A voz ecoa quase sem resposta. Microfonia. Silêncio.
“Preparem-se para a cerimônia”.
(RIDERS ON THE STORM COMEÇA A TOCAR AO FUNDO)
Sou embalado pelo negrume da noite aflita que arde & queima / delimita minha pressa. Que chuva é essa que cai lenta? E os passos no escuro? Me acorde antes que seja tarde.
“Dêem as mãos, reinventemos os ritos & os mitos da morte / escrevamos uma nova história começando pelo fim”. This is the end.
Esse meu rosto barroco / sem nação / coração sem fronteira / longa trajetória de um tuareg / sou guiado pela certeza de que nada sei. No instante seguinte fragmento-me até o limite da palavra. Limite. Que filme é esse, sem cor, sem som?
“Lamentas pelo que ainda não tens? Pelo que ainda não vistes? Por tudo o que ainda não és?”
A platéia conivente sorri de tudo ou sempre quase tudo / jogando moedas como pagas ao espetáculo. Sinto-me como animal em cativeiro. Sinto e sei. Nunca mais vou olhar em seus olhos outra vez. Consegue imaginar como será tão sem limites e livre, desesperadamente precisando da mão de algum estranho?
“Dêem-se as mãos. Sintam a música & o cheiro de sexo que há nela, no corpo & na dança do corpo a verdadeira catarse.”
Poesia é lixo de luxo num mundo obcecado por formas & custo / leitura instantânea para massas de baixo impacto, condicionadas a só dizer sim.
“Quando rires, é do próprio ridículo, quando chorares é da própria covardia, quando partires não sobrará nada, vezes nada. Exatamente o que és dentro de todo & qualquer contexto: subtexto de tudo o quanto combato”.
(A MÚSICA PÁRA)
O assassino acordou antes do amanhecer. Calçou suas botas, Pegou um rosto na antiga galeria.
E seguiu pelo corredor.
“Estão todos aí?”
“A cerimônia vai começar”
| wallace puosso / mar 06 |
Nietzsche, Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Poe, Blake, Artaud, Cocteau, Nijinsky, Byron, Coleridge, Dylan Thomas, Brendan Behan, Jack Kerouac,
O que não mata você, o faz mais forte.
Produzido por Wallace às 18h01
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| Segunda-feira , 13 de Março de 2006 |
Foto retirada do blog: www.reaprendendo.blogger.com.br.
SEM PORTEIRA
NOS OLHOS
SEM ÓDIO
NO CORAÇÃO,
SÓ SANGUE
SEM ARMADURAS
SEM COURAÇAS
PEITO ABERTO
SEM ESCUDOS
SEM LANÇAS
SEM SOLDADOS ROMANOS POR PERTO
SEM EGO
SÓ LUZ
EXISTIR DEVE SER ASSIM
Produzido por Ana Clara às 00h33
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| Quinta-feira , 09 de Março de 2006 |

os opostos se atraem
QUANTAS ESTRELAS tem o brilho dos olhos quando a noite cai a seu contento? Qual seu nome? De onde você vem? Diga-me quem é e lhe direi porque sou assim. Seu mundo é lilás, o meu é blues. Feito Bourbon Street na paulicéia desvairada de Roberto Piva. Nasci em sampa no ano que não terminou e você, minha obra acabada, minha Vênus de Milo, meu vício desde o início. Meu riesling. Porque seu vinho branco é tão bom? Adoro pele clara e sensível ao toque da boca que busca sempre o caminho de volta. Volta. Meu sex out drive psicodélico com San Francisco em 50 & 60 & além do mais, nunca houve nada pra baixo do equador pra guardar na lembrança viva a não ser seu olhar, sua boca & seu coração. Não sou cirurgião de almas & vontades, mas meu bisturi tátil é complemento à sua fantasia. A única coisa comum entre nós é coisa de pele, cheiro & corpo colado. O corpo é a casa de tudo que penso & faço, é como copo de um líquido sagrado, espesso e derramado. Amo-lhe às escuras, feito deus pagão, escrito com letra minúscula & dogmas para quem não sabe ler. Mas é fiel ao toque. A fé é substancial & o essencial é ter-lhe por perto numa tarde de verão. Ou de primavera. Ou quando fizer calor & a vontade gritar de vontade de possuir. Calor. Vivaldi fez uma obra-prima sobre essas e outras estações. Legiões à solta pra quando o sol bater na janela dos seus olhos. Qual seu nome? Diga-me quando você vem que lhe digo onde estarei. Qual signo rege seu caminho? Diga-me sua sentença e lhe direi qual destino reservo-lhe em meio à carta de estrelas e você navegará pelo meu corpo easy rider numa dança meio esquisita, pulp fiction em alto estilo. Perigoso? Perigo é não fazer o que se gosta na hora em que se quer. Perigo é um olhar que não diz nada, um amor pela metade, uma poesia inacabada. Vinícius e Drummond eram & ainda são o mais refinado em amor & sedução. Eles também viraram estrelas & agora já não sei quantos brilhos tem seu olhar de petição. Sei que se você tentar me seduzir de novo, não terei coragem de dizer não.
[WALLACE PUOSSO, reeditando]
Aproveite as dicas do conto, busque mais informações sobre os negritos, aumente o vocabulário e melhore o grau de qualidade do seu conhecimento. Um conto, uma crônica, um poema não é somente feito de estórias. Nos conteúdos (muitas vezes) se esconde universos inteiros.
Produzido por Wallace às 00h14
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| Segunda-feira , 06 de Março de 2006 |

l paisagem l
por fora meu horizonte exposto / cosmopolita, insaturável / por dentro um lobo faminto / poema do corpo que sinto / para sempre um uivo latente / Estranho aos ouvidos / meu subtexto símbolo & metáfora / Porto de Glasgow em plena Guanabara.
l wallace puosso / mai 02 l
Produzido por Wallace às 14h47
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| Quinta-feira , 02 de Março de 2006 |

|sonhos sonhos são|
HORIZONTE ESCURO SE AVIZINHA. Procuro sua mão, não encontro. Coração em disparada. Lembro-me de Geraldo Vandré, perambulando louco pelas praças de São Paulo, depois de tanto pau-de-arara. Nem tudo são flores. O tempo voa, já diria um poeta futuro. A voz da aeromoça no alto-falante avisa que pousaremos para escala em questão de minutos. “Ponham os cintos, por favor”. Então me lembro de onde estou. Horizonte escuro. Sobre algum país da América Latina. Um frio percorre a espinha. Então temo pelos oprimidos hermanos. Meu país fictício não passa de uma ilha nesse universo em castelhano. Estará o aeroporto tomado por guerrilheiros? Ou militares? Não importa. Quase sempre é a mesma merda. No fundo, no fundo, toda luta é pelo poder. Por mais poder. Procuro respostas, nada. Já está tudo escrito. Em algum lugar. Talvez seja destino, esse que nos une em vôo cego. A palma da tua mão não tem linhas. E nunca sei por onde você anda. “Cuidado, qualquer esquina é um perigo!”. Inquieto, me remexo. Despejo pragas numa língua estrangeira por algum incômodo momentâneo. Não sei mais que língua é essa. Nem sei o que tenho falado. Procuro ser ouvido, esforço em vão. Meu passo trôpego denuncia uísque em excesso. O cachorro engarrafado do Vinícius. Embevecido por uma beleza quase platônica, conduzo-lhe pelo Muro das Lamentações, pela Muralha da China, pelas moradas dos faraós embalsamados. Encalacrado, reteso-me ao tentar sair desse turbilhão de sensações. Força inútil. Cantarolo uma canção do Chico, pra disfarçar o nervosismo: “Que sonho é esse de que não se sai / E em que se vai trocando as pernas / E se cai e se levanta noutro sonho”. Quando foi mesmo que comecei a ouvir Chico Buarque? Já nem me lembro. Talvez na época dos movimentos estudantis. Quando lhe conheci. Tínhamos o sonho de mudar o Brasil. E fazíamos planos, vários planos. Mas o país mudou pra pior. Então fotografo mais uma vez o horizonte escuro. Na turbulência, sinto e sei que é sonho. Não porque me vejo livre. Não porque nosso avião parece rumar a um lugar seguro. Mas porque na verdade você já não me quer. E pra ser mais correto, você nunca existiu. Foi só desejo. Abro os olhos. “Escuro aqui fora”. O mundo é sempre mais leve nos sonhos. A madrugada ainda nem chegou, quando o carcereiro conta entre grades que a Lei da Anistia foi sancionada naquela tarde de agosto. Talvez seja sonho. Mas é sempre bom voltar. Não importa de onde.
| wallace puosso / jan 06 |
conto originalmente escrito para o blog escrevinhadores (http://www.escrevinhadores.blogspot.com/), com o qual colaboro.
Produzido por Wallace às 11h29
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