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| Sábado , 29 de Abril de 2006 |

Profeta Gentileza
“Gentileza gera Gentileza”
Seguramente muitos do Rio se lembram daquela figura singular de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens, um estandarte na mão com muitos dizeres em vermelho, que a partir do início de 1970 até a sua morte em 1996 percorria toda a cidade, viajava nas barcas Rio-Niterói, entrava nos trens e ônibus para fazer a sua pregação. A partir de 1980 encheu as 55 pilastras do viaduto do Caju, perto da Rodoviária, com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização. Não era louco como parecia, mas um profeta da têmpera dos profetas bíblicos, como Amós ou Oséias.
Como todo profeta, sentiu também ele um chamamento divino que veio através de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas. Era um empresário de transporte de cargas em Guadalupe e sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias dessas vítimas. Deixou tudo para trás, tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas de 100 litros de vinho e, lá junto às barcas, em Niterói, distribuía-o em pequenos copos de plástico, dizendo: ''Quem quiser tomar vinho, não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido''.
De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo assim como está organizado, como um circo, pelo ''capeta-capital, que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade''. Segundo ele, devemos construir outro mundo a partir da gentileza, o que ele fez em miniatura, transformando o local num belíssimo jardim, chamado ''Paraíso Gentileza''. O quarto aplique de sua bata dizia: ''Gentileza é o remédio de todos os males, amor e liberdade''. E fundamentava assim: ''Deus-Pai é Gentileza que gera o Filho por Gentileza. Por isso, Gentileza gera Gentileza''. Ensinava com insistência: em lugar de ''muito obrigado'', devemos dizer ''agradecido'', e ao invés de ''por favor'', devemos usar ''por gentileza'' ,porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor.
Não é disso que estamos precisando? A gentileza funda um princípio civilizatório, princípio descurado pela modernidade e hoje de extrema importância se quiser humanizar as relações demasiadamente funcionais e marcadas pela violência.
A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres do pensamento acadêmico, como Freud com seu O mal estar da civilização ou a Escola de Frankfurt, Horkheimer com seu O eclipse da razão e Habermas com o seu Conhecimento e interesse ou mesmo toda a produção filosófica do Heidegger tardio. O Profeta Gentileza, representante do pensamento popular e cordial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres. Mas foi mais certeiro que eles ao propor a alternativa: a gentileza como irradiação do cuidado e da ternura essencial. Esse paradigma tem mais chance de nos humanizar do que aquele que ardeu no circo de Niterói: o espírito de geometria, o saber como poder e o poder como dominação sobre os outros e a natureza.
[Ana Clara Galvão, abril/06]
Produzido por Ana Clara às 22h24
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| Quarta-feira , 26 de Abril de 2006 |

l cor de laranja l
Para toda cor, o calor da noite, para cada abraço, um pedaço que fica. Fica. Todo dia um glossário de horas e no horário em que o vento passa, seu perfume e a flor em que a borboleta pousa.
Para cada olhar, uma sentença, para quem some uma carta selada, postada e a resposta que não tarda.
Para toda a vida, um amor que fica, a lembrança viva, um colar de conchas, o anel que brilha, uma foto inesperada, um passeio na praia. Uma história bem-humorada e com final feliz.
Para quem vive, um poema em brasa, um tema novo e uma voz diferente ao telefone.
Para toda estória, um trajeto que se renova, recicla, se adianta ao amarelo do tempo.
Antes que me lembrasse de uma cor, o laranja.
Antes da esperança, a certeza.
Antes que se fizesse dúvida, o acerto.
Antes que tudo se fosse e o amor morresse e a pressa vencesse.
Antes que a saudade existisse, existiu você.
E essa, é a melhor parte da história.
l wallace puosso / jul 05 l
Produzido por Wallace às 16h04
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| Domingo , 23 de Abril de 2006 |
150 palavras

l bancando john fante l
Começou como brincadeira. Esse negócio de blog. A princípio ele se limitava a olhar para aquela coisa com teclado e monitor e aquilo lhe era estranho. Seguidor dos beats, a modernidade lhe soava um tanto estéril: sempre escrevera à mão, em caderno brochura, poemas e contos de sacanagem. Resolveu encarar de frente essa brincadeira e criou um blog com seu próprio nome. Hoje, é personagem de si mesmo, um egóico, mora num apartamento emprestado por um leitor e vive de "bicos". Faz questão de dizer que esse jeito "outsider" não é moda, mas necessidade: "literatura marginal não paga nem a feira". A crítica de plantão torce o nariz e não vê sentido nessa nova escritura, impregnada de blogs e pessoas que sempre tem o que dizer. A crítica jornalística, principalmente. Mas ele não assina nem lê jornais. E escreve para uma parte considerável de silenciosos anônimos. Ele, também um anônimo.
l wallace puosso, reeditando l
CD: Circuladô - Caetano Veloso
Livro: 1001 Razões Para Gostar do Brasil - Marcelo Camacho (Ed. Sextante/2003)
Produzido por Wallace às 14h49
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| Quinta-feira , 20 de Abril de 2006 |
“Mudamos a cada segundo...
Somos feitos de versões,
Versos ou aversões.
Depende do humor do mundo.
Adeus à cansativa
Mesmice dos mortais.
Já sou free,
Não sofro mais
Descobri que estou viva
E nunca é tarde de mais...
Depois de tanto pensar,
Descobri o que aconteceu.
Dentro de mim, o mundo.
Fora de mim... EU “
Produzido por Ana Clara às 00h10
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| Segunda-feira , 17 de Abril de 2006 |

O cara tinha fama de pão duro. Mesmo depois que passou a ganhar uma grana como roteirista em Hollywood, ainda alugava o sofá da casa de um amigo. Diziam que ele economizava porque preferia gastar seu dinheiro com putas. De preferência, negras e gordas, suas prediletas. Dizem também que Lauren Bacall era louca por ele e que andou sacaneando o velho Bogart com o escritor. Mas parece que ele preferia as putas mesmo. É o que dizem. Só conheço a obra do cara, e essa é du caralho. O primeiro que li foi “Atire no Pianista” (por isso esse blog foi batizado de “Atire no Dramaturgo”). O que sei é que “A Garota de Cassidy” acaba de sair pela coleção pocket da LPM. Custa só R$ 14 e é imperdível. Ponto.
Ah, o nome do Cara é David Goodis.
Mas ele odiava o trabalho, odiava o quarto, estava se odiando por ter chegado àquele ponto e decidiu que precisava de bebida. Na terceira semana no emprego dirigiu-se a um bar no cais chamado Lundy´s Place, um estabelecimento de assoalho sujo, paredes rachadas e seres humanos desnorteados. Pediu uma dose de malte. Pediu outra dose. Estava na terceira quando viu o brilhante vestido roxo, o jeito como ele se salientava, a maneira como ela estava sentada ali, olhando para ele. Foi até a mesa. Ela estava sentada lá sozinha. Ele perguntou o que ela estava olhando. Mildred disse que ele seria bem mais bonito se tivesse um pouco mais de dentes na boca. Ele lhe contou como perdera os dentes. Oito ou nove doses depois estava lhe contando tudo. Quando acabou, olhou para ela e esperou pela reação. Sua reação foi dar de ombros. Algumas noites depois, quando ele a convidou a ir ao seu quarto, ela deu de ombros novamente, levantou-se e eles saíram juntos. No dia seguinte, Cassidy foi ao dentista e encomendou uma ponte de três dentes.
quer mais? leia no blog http://atirenodramaturgo.zip.net/ do autor, diretor e ator Mário Bortolotto
Produzido por Wallace às 19h20
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| Quinta-feira , 13 de Abril de 2006 |
auto-exílio

auto-retrato
sinto-me estrangeiro
em meu país
com minha arte
em meu próprio corpo
Produzido por Wallace às 19h21
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| Segunda-feira , 10 de Abril de 2006 |
| balas na agulha para um bandoleiro só |
NADA É PRA JÁ & até agora esperamos, esperamos o sinal fechado como quem obedece a sinais impostos & caminha pré-destinado num rumo nada certo & cego - o profético cumprimento da razão num mundo feito mosaico alvinegro. E tenho dito. Prosaico, por vezes escrevo coisas que ninguém entende. E sonho um mundo de palavras. Palavras que não se usam mais. Dialética imperativa: não porque se tornaram ineficientes no seu uso diário, mas porque engrossaram o cadinho da ignorância geral e irrestrita. E coisa e tal. Lá pelas tantas, alguém virou & disse que sonhar era bom até certo ponto. Que ponto? Fechar a porta principal das sensações / percepções nada mais é que a capacidade oculta de:
1 - morrer aos poucos choramingando a sorte perdida e/ou
2 - olhar de viés pelo vitral de cristais embaçado pela respiração arfante e/ou
3 - amar perdidamente um estranho chamado desejo & sucumbir à culpa.
Culpa, artigo cristão de primeira necessidade. Fé e cacofonia. Na respiração arfante e na sorte perdida, o louco ri do tolo. E o poeta é tido como fútil. E coisa e tal. Porém, a sinfonia entre os que sonham coisas melhores (ainda) é o tipo de música com apelo poético & dispensa certas formalidades, como intérpretes & tradutores afoitos:
a) inconstante nos amores, nas amizades ou b) sem paradeiro certo, errante ou c) sem ocupação, ocioso
É verdade que já não se fazem mais poetas como antes & antes poucos ousavam sê-los com dignidade & sincero afinco. Por isso digo. Por hora o que impera na selvageria escura das velhas certezas são só palavras ocas & tolas saídas de cabeças não menos receptivas a ecos & berros guturais. Dialética ao contrário: poucas são as possibilidades de belo, estético & correto no fim do túnel iluminado por falsas & perigosas certezas. E coisa e tal. Até quando nós, os sujeitos da transformação (seja ela qual for) seremos agentes da dissimilaridade?
|WALLACE PUOSSO, do livro “Estrangeiro” a ser lançado como arte coletiva, nos próximos meses|
O título desta crônica tem um sentido duplo. Existe o sentido da solidão e da unicidade. Funciona como provocação e indução, já que ambos os termos se entrelaçam no desenvolvimento do texto. A palavra “dialética” não é repetida apenas como efeito poético, mas contém em si, também o que permeia o conto, retratado de maneira mais clara na pergunta que encerra o texto – e diz respeito a algo que pertence a diferente tipo, gênero, espécie etc., segundo o Houaiss. O poeta se questiona, no plano da poética. Quer saber mais? Leia Aristóteles.
Produzido por Wallace às 14h07
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| Segunda-feira , 03 de Abril de 2006 |

Refugiados etíopes. Etiópia, 1985 – Foto: Sebastião Salgado
obtuário
Esses rostos, que gritam sem mover a boca,
já não são rostos de outros.
Esses rostos deixaram de ser convenientemente
distantes e etéreos, pretextos ingênuos
para a caridade de consciências pesadas.
Eduardo Galeano
Judeus na Palestina, xiitas e sunitas, homens-bomba e homens-bíblia, sérvios e croatas, brasileiros e argentinos, corintianos e palmeirenses e são-paulinos e santistas, manos e boys, paquistaneses na Índia, índios do baixo-Xingu, índios e madeireiros, índios americanos e a cavalaria, cleros e burgueses, tibetanos e chineses e japoneses, japoneses em Hong Kong, cearenses e paulistas no Rio de Janeiro, gaúchos em qualquer lugar, cubanos em Miami, novaiorquinos em Londres, brasileiros na Suíça, irlandeses e ingleses, coreanos do norte e do sul, iranianos e iraquianos e israelenses, libaneses e americanos e iranianos, espanhóis e astecas e maias, franceses e africanos, albaneses e argelinos, castristas e americanos e russos, homossexuais no Brooklin, negros na europa, punks e hippies e carecas e metaleiros, católicos e protestantes e evangélicos, alemães e nazistas e os judeus alemães, realeza e proletariado, camelôs e fiscais, policias traficantes, padres homosexuais e liberais, negros e Ku-klux-kan, meninos de rua, catadores de papel, negros pobres, negros ricos, ex-detentos, pecadores e apóstolos, americanos e vietnamitas, russos e afegãos, sírios e americanos e terroristas muçulmanos, ingleses na Índia, argentinos e ingleses, brasileiros e paraguaios, latifundiários e sem-terras, capangas, calangos, nordestinos em São Paulo, etíopes e sudaneses, luteranos e cristãos, muçulmanos e americanos. Fome, fé, ideologia, sotaque, nacionalidade, ignorância, ambição. Intolerância. De uma forma ou de outra, isso mata.
l wallace puosso / fev 06 l
conto originalmente escrito para o blog http://www.escrevinhadores.blogspot.com/, com o qual colaboro.
Produzido por Wallace às 19h12
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