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| Segunda-feira , 28 de Agosto de 2006 |
150 palavras
l o poeta do silêncio l
Solidão e incomunicabilidade. Em meio às ruidosas aventuras e roteiros óbvios que a meca do cinema produz atualmente, Antonioni destaca-se como poeta de imagens plasticamente bem elaboradas e filma o silêncio e a solidão com uma desesperada elegância. Na obra antoniana, o silêncio diz mais que mil palavras. Fina estampa. "Vizione del Silenzio", assim Caetano inicia sua canção em homenagem ao mestre. Esquinas vazias, páginas em branco, poemas concisos. Sete versos, vinte palavras. Na ponte aonde se encontram a concisão da poesia cantada com a perfeição estética gravada no celulóide, Caetano e Antonioni parecem afirmar: menos é mais. O homem moderno parece ter perdido o sentido da palavra, do primitivo, da essência. Está condenado – como "Entre Quatro Paredes" de Sartre – ao vazio existencial e a ser consumido pelo tédio. A contrário do cinema moderno, Antonioni é um artista do essencial, como poucos. Mínimas palavras, cenas que dizem mesmo sem dizer.
l wallace puosso, reeditando l
PARA CONHECER MAIS: "A Noite" - Michelangelo Antonioni / "Rocco e seus Irmãos" - Luchino Visconti / CD "Noites do Norte" - Caetano Veloso
Produzido por Wallace às 18h09
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| Sábado , 26 de Agosto de 2006 |

luz e sombra
GABRIEL SEMPRE SE ACHOU POETA. Naquele momento, olhava pela janela do carro e o que via não tinha nada de poesia: ruas esburacadas, cheias de crianças pretas e descalças correndo de um lado para outro, como se houvesse muito por que correr, num lugar onde o tempo parece estar num dolorido repouso. Ruas sem nome, com esgoto a céu aberto e casas desbotadas, mal-acabadas sem muros e sem calçadas, cheias de roupas penduradas, instalações clandestinas e clandestinos com nome de Ribamar e Severino. Isso a poucos quilômetros do mundo chamado civilizado, na terceira maior cidade do planeta.
Ele era poeta, não tão conhecido mas tinha até livro escrito, um livro apenas, xerocado e distribuído entre amigos. Achava que escrevia bem, mas jamais teve uma certeza disso e, enquanto sonhava com o glamour/status que a literatura poderia lhe proporcionar, acomodava-se confortavelmente em suas nebulosas razões e colecionava conquistas e frustrações em proporções desiguais.
O carro chacoalhava tanto que incomodava a ordem natural das palavras ordenadas pela memória, como se um pedaço da frase de cima, num texto, caísse para a frase de baixo e ele tivesse que reorganizar tudo de novo, inclusive a linha de raciocínio. Mais um buraco e Gabriel bateu com a cabeça na lateral do carro. “Que lugar do cão!” pensou, enquanto tentava em vão arrumar o equipamento fotográfico na bolsa. Desistiu. Achou mais prudente arrumar depois que o carro parasse.
As ruas disformes e por vezes incompletas emolduravam o caos, num lugar onde as pessoas datavam-se também incompletas numa espécie de desorientação geral. Aquele lugar lhe dava a impressão de que o mundo realmente estava falido, acabado e o que sobrava era um ideário falso, destoado e desbotado que sempre imperou nas camadas mais favorecidas e omissas da população.
Era um idealista, sempre teve a convicção de que Cuba deveria um modelo a ser seguido. Mas o que é que Cuba tinha a ver com a zona sul de São Paulo?
Nem Gabriel sabia direito. (CONTINUA)
Produzido por Wallace às 20h42
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Trabalhava como repórter fotográfico num jornal e passava os dias clicando acidentes de carro / chacinas / políticos. Esse era o mundo de Gabriel, que se achava poeta mas era incapaz de enxergar qualquer sinal de poesia no caos dos subúrbios da Grande São Paulo. Ele idealizava um mundo um pouco mais humano, generoso, alegre nos convívios e mais rico nas amizades.
Não agüentava mais ver defunto pela frente.
O carro da reportagem finalmente parou. No local, gente espalhada pela rua, sobre os muros, acotovelando-se para tentar ver alguma coisa no interior escuro e trágico daquela casa. “As pessoas têm uma atração esquisita por cenas que envolvem a morte” - pensou enquanto colocava o flash na sua Canon. Talvez fosse compaixão, auto-fragelo ou apenas mera curiosidade. Pegou mais um filme, colocou-o no bolso e desceu.
Pediu licença a um policial com cara de poucos amigos e entrou para fotografar três corpos, cobertos com plásticos, a sala cheia de manchas de sangue, espalhados pelo sofá rasgado e paredes descascadas. Cheiro insuportável. Sentiu o estômago revirar. Prendeu a respiração e ajustou o foco.
O que via pelo diafragma não era o que olhos comuns são capazes de perceber. Fora assim desde que descobrira sua paixão pela fotografia. A partir de então, passara a observar o mundo por uma objetiva imaginária “O bom fotógrafo”, sempre dizia, “busca imortalizar uma fatia do tempo, prendê-la numa película, registrando a riqueza do que não é perceptível.” Naquele princípio de tarde, ele era incapaz de entender como a foto de uma atrocidade daquelas pudesse ter alguma riqueza técnica. A cada vez que apertava o botão, ele via a desgraça e a miséria humana de um ângulo diferente. A cada vez que apertava o botão sentia raiva e asco.
Terminou suas fotos o mais rápido possível e encaminhou-se de volta ao carro. O jornalista virou-se pra ele, dizendo que havia um assalto a banco com reféns no centro da cidade e estavam escalados.
Gabriel deu de ombros. A tarde interminavelmente longa fazia com que seu trabalho fosse custoso e dolorido mas como um bom poeta que era, ele procurava tirar partido de toda e qualquer situação. Por mais adversa que fosse.
Mas não via a hora do dia acabar.
Produzido por Wallace às 20h40
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| Terça-feira , 22 de Agosto de 2006 |
uma banda


Parece vício, mas é só tédio. O que me compõe. Por hora nada muda: grito seco & surdo. A memória é o paraíso & o gatilho da arma. Com que frequência somos verdadeiros? Com que coragem? O colorido da retrato emoldurado sobre a mesa de centro denuncia: você já sorriu um dia. Lembra-se de quando foi feliz? Lembra-se dos amigos, das piadas e dos porres? Brilho eterno de uma lembrança tardia. Lembro-me de estadas & partidas. Brilho nos olhos, estradas sem fim. o rigor rebelde dos dezoito. Ser aceito é tudo que se quer. Nossa vida já vale uma boa banda de rock.
|wallace puosso / ago 06|
Produzido por Wallace às 17h00
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| Quarta-feira , 09 de Agosto de 2006 |
Foto: Eustaquio Neves -Urban Chaos
...em meio ao caos aparente / gritar liberta a alma / e há sempre alguém que ouve. Pior que o silêncio do outro / é não termos o que falar.
l wallace puosso / ago 06 l
ENSAIOS de "Toda Nudez Será Castigada", de Nelson Rodrigues e "Maya - Poema Para um Deus Cego", a partir do tema "7 pecados Capitais"
OUVINDO: Queen Margot, Nina Simone, Mozart, Carlos Gardel, Moby
ASSISTINDO: "O Anjo Azul", com Marlene Dietrich, "A Má Educação", de Almodóvar, "Seven" e vídeos do grupo catalão "La Fura Dels Baus" (www.lafura.com)
Produzido por Wallace às 11h57
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| Sexta-feira , 04 de Agosto de 2006 |
... o silêncio muitas vezes diz.
O espaço entre as palavras ditas com o olhar, a pausa entre as canções, entre uma batida e outra. Do coração.
O silêncio é feito de palavras.
Pra quem souber ouvir.
l wallace puosso / ago 06 l
Produzido por Wallace às 15h09
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