O Canto do Gregório - CPT/Antunes Filho
a difícil arte de fazer teatro
No começo, o projeto empolga. Uma nova experiência, uma estética diferente, um autor contemporâneo, um grupo que se forma. Um grupo em busca de identidade.
Houve um tempo em que o diretor propunha o projeto e o elenco “comprava” a idéia. Se bem que, esse negócio de “comprar” a idéia do diretor (pronta, formatada) algumas vezes gerava rebeliões no elenco. Mas, na maior parte das vezes o processo corria normalmente. Havia distribuição de papéis, trabalhos de mesa, leituras e mais leituras. Depois, improvisos, construção de personagem, marcação de cena. No meu grupo, além de tudo isso, ainda tinha criatividade da direção e do elenco: mil maneiras de se fazer um espetáculo sem dinheiro. E fizemos vários! Na verdade, eu nunca fiz espetáculo com dinheiro... Nem imagino como seja.
Se houve um tempo em que o diretor era o artífice de idéias, hoje os tempos são outros. Aprendemos lições importantes com os grupos de teatro dos anos 60 e 70. Aprendemos a trabalhar em processo colaborativo.
Agora, o grupo define seu objeto de pesquisa. Atores, diretor e dramaturgo juntos, formulam as bases e os alicerces a partir de uma idéia, um conceito, uma busca. O projeto é então, erigido sob a comunhão de todos.
O dramaturgo Luis Alberto de Abreu explica melhor esse processo:
O "processo colaborativo é um processo criativo que busca a horizontalidade nas relações entre os criadores do espetáculo teatral", pretende "prescindir de qualquer hierarquia pré-estabelecida. (...) e prossegue: (...) Todos esses criadores e todos os outros mais colocam experiência, conhecimento e talento a serviço da construção do espetáculo de tal forma que se tornam imprecisos os limites e o alcance da atuação de cada um deles."
Parece fácil, mas não é. O caminho do processo colaborativo é um caminho árduo, complexo, dolorido, custoso. O teatro – como arte coletiva – pressupõe há muito tempo, que é preciso haver a reunião de mais de uma pessoa em torno de uma idéia, para que aconteça o espetáculo teatral. Pressupõe também que diferenças e desníveis sejam superados em nome de um objetivo comum.
Com o processo colaborativo, se o grupo não souber realmente o que quer ou se não estiver aberto às mudanças de rota no meio do caminho, se não souber como superar suas diferenças individuais, dificilmente alguma coisa resultará disso.
No começo, os projetos sempre empolgam. Mas não precisamos mais de projetos que empolguem. Precisamos sim, de idéias. Boas idéias que se concretizem.
E o teatro, pode ter certeza: agradece.
wallace puosso, junho de 2006
Produzido por Wallace às 10h42
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