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| Sexta-feira , 29 de Dezembro de 2006 |

foto_nota_nelsonkon_0429
cena em relevo, retrato em sépia
Severino andava tranqüilo por uma rua qualquer, olhar perdido, cantarolando uma canção qualquer, dessas sem verso nem refrão. Severino padrão, igual a tantos outros que perambulam pelas ruas. De repente impulsionado por nada dobrou uma esquina, oitocentos metros depois outra & três casas depois adentrou sorrateiro por uma porta suspeita, dessas com tinta descascada & faltando número, subiu apressado quatro lances de escada & num corredor com lâmpada queimada entrou num quarto suspeito, abriu uma cachaça barata, dessas com tampinha e nome esquisito, ligou no jornal das oito & enquanto cid moreira centenário & absoluto discorria sobre os males do homem, Severino enforcou-se com a gravata nova no encanamento do banheiro malcheiroso e num canto da boca um sorriso: teria enfim a paz, seria enfim feliz, ele que quase conseguiu, quase se formou, quase se casou, quase venceu, quase subiu na vida, quase conseguiu ser ele mesmo, Severino com um quase sobrenome, como tantos outros severinos quase gente em meio ao buraco negro da cidade grande, ele um quase severino.
l wallace puosso, reeditando l
Produzido por Wallace às 12h21
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| Sexta-feira , 22 de Dezembro de 2006 |

certas canções
Tenho uma canção dos Beatles que não me sai da cabeça. Ainda tamborilo os dedos numa superfície qualquer com meu pensamento distante. Às vezes penso em Mahabarata. E admiro a cada dia mais o Dalai Lama. Sinto falta dos amigos, porque resolvi pôr a arte acima de tudo. Até quando conseguirei ir à padaria sem ser reconhecido publicamente? A noção hiper-moderna de sucesso está relacionada ao número de citações na internet ou quando se vira verbete da Wikipédia? Besteiras. Tenho compulsão por comprar CD’s e DVd’s. E filmes em VHS. Principalmente os clássicos. Sinto saudades com muita freqüência. Mas olho pra frente com certo otimismo. Amo os detalhes. E os amores feitos de olhares e silêncio. Tenho uma noção simples da vida. Os outros é que complicam. Eu nunca fui bom em matemática. Como bom curioso, sou entusiasta da Grécia Antiga. E dos mitos. Ainda troco a TV e o vídeo por um bom livro. As coisas boas da vida duram pouco. Porque a maior parte das canções dos Beatles têm pouco mais de dois minutos? Deveriam durar pra sempre.
l wallace puosso / dez 06 l
Produzido por Wallace às 18h31
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| Quinta-feira , 21 de Dezembro de 2006 |
entre aspas
Quem sou eu pra ensinar você... Conversando a gente aprende um com o outro... No dia-a-dia a gente aprende muito... Você nasce aprendendo. Todo dia. Todo dia acontece uma coisa nova, uma coisa diferente. Acontece uma coisa que você não gosta, uma coisa que você gosta. Uma coisa que você pensa que é boa e não é... Depois passa um tempo, você vai analisar... o fato velho... ou o fato errado...
Extraído dos depoimentos de pessoas que vivem nas ruas de São Paulo.
O Realejo 2003-2004 © Rosana Palazyan
26ª Bienal de São Paulo
Produzido por Wallace às 13h03
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| Quarta-feira , 13 de Dezembro de 2006 |

um longo caminho
contra a barbárie nas entranhas da sociedade, pela esperança e pela verdade, contra a falta de vontade política (com relação à cultura), pela arte que não se vende, porque gente não tem preço, contra um teatro que se faz pelo avesso, de qualquer forma, pelas pessoas que lutam uma vida toda, por uma corda que não arrebente sempre do lado mais fraco, contra os que têm pudores e dogmas e certezas absolutas, por um pensamento novo que se construa propositivo, por tudo o que nos faça vivos, seguimos.
wallace puosso, dezembro de 2006
E por isso (também) fazemos um espetáculo como YULUNGA. Para ver as fotos e saber mais sobre, visite: www.yulunga.blogger.com.br. Abra os olhos!
Produzido por Wallace às 10h54
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| Domingo , 03 de Dezembro de 2006 |


Yulunga – poema para um deus morto
Você não sente mais o silêncio de deus.
O tesão reprimido, a palavra calada. Desejo de ficar trancado durante horas e horas e mais nada.
Aqui é o lugar que não existe. Desejo fingir cada vez mais. Errar, tentar de novo, fracassar. Porque os verdadeiros paraísos são os paraísos perdidos. Você já reparou?
Quanto tempo leva a ferida pra cicatrizar?
Como não mentir, se quero fazer sacanagens com você e a dor não passa?
Meu sangue vaza, jorra, escorre por entre as pernas. Sou como a queda, a peste, a violência de um corpo contra outro corpo. Traumas. Culpas. Tédio. Um amor não consumido. Uma trepada mal dada.
Se apaixonar, é um exercício de esquizofrenia. Dia após dia, após dia...
Somos angelicais e satânicos. Barro disforme querendo virar gente.
Você não sente, mas o silêncio de deus se faz presente quando enfim você me abre as pernas e eu me perco no escuro do quarto.
“Tem alguém aí?”
“Tem alguém aí?”
A cerimônia já vai começar.
wallace puosso, novembro de 2006
Produzido por Wallace às 21h47
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